A missão de Maria, Mãe de Deus, na visão patrística

A missão que Maria, a mãe de Jesus desempenhou junto à humanidade, recebeu doutrina considerável na época dos padres da Igreja. 

Esses autores tiveram presentes os dados bíblicos e sempre consideraram Maria à luz do Verbo Encarnado. Ainda que esse período não desenvolvesse um tratado específico a respeito de Maria, no entanto os elementos encontrados na patrística iluminam a doutrina mariana eclesial posterior. Num período de círios, romarias, devoções, orações a Maria, é importante analisar a doutrina mariana pelos padres da Igreja. A seguir, nós veremos a forma como Maria foi conhecida como a Mãe do Filho de Deus a partir de alguns autores cristãos da Igreja antiga.

1. Maria na concepção dos padres dos três primeiros séculos

Um dos primeiros a falar de Maria foi Inácio de Antioquia ao afirmar diante dos docetas que negavam a humanidade de Jesus, que o Senhor tinha uma dupla geração, a eterna e a terrena através de Maria sendo o mesmo Verbo, palavra eterna do Pai. Uma afirmação mais sistematizada é percebida em Justino de Roma. Seguindo o paralelo de São Paulo, Cristo-Adão contrapõe o de Maria-Eva. Na obra Diálogo com Trifão (100) encontramos esta afirmação: "De fato, quando ainda era virgem e incorrupta, Eva, tendo concebido a palavra que a serpentes lhe disse, deu à luz a desobediência e a morte. A virgem Maria, porém concebeu fé e alegria, quando o anjo Gabriel lhe deu a boa noticia de que o Espírito do Senhor viria sobre ela e a força do Altíssimo a cobriria com sua sombra, através do que o santo que dela nasceu seria o Filho de Deus. Maria foi obediente ao plano de salvação de Deus de modo que ela foi instrumento da graça pela presença do Salvador na humanidade e em cada um de nós.

Orígenes, autor cristão que viveu em Alexandria e depois na Palestina foi bem mais ousado. Segundo o historiador bizantino Zózimo, ele usou a palavra Theotókos, titulo aplicado a Maria, Mãe de Deus. É fundamental dizer que Deus não possui uma mãe, porque é eterno e é o Criador de todas as coisas e dos seres humanos, mas pelo fato de que Maria gerou na carne o Filho de Deus, a ela lhe é dada este titulo. Esse título não foi encontrado nos livros de Orígenes que chegaram até nós, mas certamente estaria nos livros que foram destruídos. Além disso, a Escola de Alexandria usava por muito tempo este titulo para exprimir a maternidade divina de Maria, quando se tornou objeto de polêmicas na primeira metade do século quinto contra o nestorianísmo até a sua definição no Concilio de Éfeso (431).

Irineu de Lião desenvolveu um duplo tema da recapitulação colocando o papel de Maria como graça de Deus, pois enquanto Eva tornou-se causa de morte, Maria é causa de salvação, porque obedeceu à palavra de salvação de Deus recebendo em seu seio por obra do Espírito Santo, Jesus Cristo, o Filho do Pai.

Tertuliano estabeleceu a realidade da humanidade de Cristo, realçando o fato de que o Senhor possuía não um corpo celeste, mas um corpo verdadeiramente nascido da mesma substância de Maria; ex Maria. Ele afirmava a virgindade perpétua de Maria, pois ele tinha que confutar os docetas, que negavam ao Cristo um verdadeiro corpo humano e pretendiam que a sua concepção e o seu nascimento não fossem que aparentes. Para Tertuliano, Maria é a segunda Eva: "Eva era ainda virgem quando concebeu a palavra sedutora que erigiria o edifício da morte. Ocorria da mesma forma que fosse introduzido em uma virgem o Verbo de Deus que devia reconstruir o monumento da vida, de modo que aquilo que foi arruinado pelo mesmo sexo, pudesse ser recuperado para a salvação".

2. A visão de Maria a partir dos séculos quarto e quinto

O século quarto ganhou um sentido mais profundo pela cristologia ligada à soteriologia, porque com a crise ariana os autores cristãos definiram com maior clareza a missão de Jesus Cristo e consequentemente a mariologia. Ário negava em Jesus a sua divindade, de modo que era preciso reforçar a pessoa na sua total unidade com o Pai, gerado desde sempre por ele e por isso Deus como o Pai é Deus. O Concílio de Nicéia de 325 dirá que o Filho é consubstancial ao Pai, tem a mesma substância dele(do Pai), sendo gerado por Ele, não criado. Como ele é Deus, é o redentor da humanidade e de cada pessoa humana. Nesse periodo a mariologia foi bem desenvolvida em relação aos seculos anteriores, porque realçava-se a doutrina de que o Verbo feito carne tornou-se igual a nós em tudo menos o pecado e que em Maria o mistério da encarnação gerou uma humanidade nova, livre da corrupção do pecado, a partir de Jesus, seu Filho.

Um dos grandes autores nesse periodo foi Atanásio de Alexandria colocando o Verbo de Deus feito carne, nascido do seio virginal de Maria. Outro autor que se destacou no século quarto foi Gregório Nazianzeno, no qual o termo Theotókos tornou-se a pedra de ortodoxia. Ele dizia que se alguém não admite que a bem-aventurada Maria é a Mãe de Deus é separado da divindade. Se alguém pretende dizer que o Cristo não nasceu através da Virgem, é ateu porque nao manifesta a fé no Filho de Deus encarnado. Considera o dogma da maternidade divina de Maria como o eixo da doutrina eclesiática sobre Cristo e a salvação.

Nesse mesmo período surgiu a figura de Gregório de Nissa ao defrontar Apolinário de Laodicéia porque este negava uma alma racional em Jesus. Gregório defendeu o caráter completo da humanidade do Cristo: Ele tinha uma alma e uma vontade livre. O Filho de Deus formou para si uma natureza humana pela carne da Virgem, assim devemos chamá-la Mãe de Deus e não só mãe do homem, Jesus. Gregório coloca a relação Adão-Cristo: se a morte veio por meio de um homem, a redenção veio por meio de outro homem, Jesus Cristo. O primeiro caiu no pecado; o segundo reergueu o homem; a mulher encontrou a sua advogada em outra mulher: Maria é "advocata Evae", a advogada de Eva.

No final do século quarto apareceu também a presença de João Crisóstomo bastante influenciado pela escola de Antioquia. Ele não aplicou à santa Virgem o título de Theotókos, mas ensina a virgindade perpétua de Maria.

No século quinto Agostinho ensinava que em Cristo há duas naturezas. Ele é Deus e homem, mas uma só Pessoa, um só Cristo. Nesta única Pessoa, a do Lógos e a do homem Jesus, existem as duas substâncias, sem mistura, permanecendo imutáveis. Mesmo em sua natureza humana, Jesus era Filho de Deus por natureza e não seu Filho adotivo. Agostinho ensina a virgindade perpétua de Maria e também a sua isenção do pecado original.

Nesse mesmo século temos a figura de Leão Magno, Papa que governou a Igreja de 440 a 461. Ele enfrentou as heresias, sobretudo a do docetismo de Estiques, que negava em Cristo a sua humanidade. Leão afirmava o duplo nascimento de Cristo a partir do símbolo apostólico, demonstrando que são distinguíveis duas naturezas em Cristo com as suas propriedades e as suas atividades respectivas, ainda que unidas em um só sujeito de atribuição. Cristo nasceu verdadeiramente de Deus e de Maria. Sendo Cristo consubstancial ao Pai e à Mãe, Ele é também solidário seja com Deus, seja com os seres humanos. Próprio por isso nenhuma pessoa obtém a salvação se não acredita à dupla consubstancialidade de Cristo (Serm. 64,2). Graças à esta unidade Cristo permaneceu obediente até a morte, sacrificou-se livremente pelo gênero humano e tornou-se o modelo da nossa ressurreição.

Ainda no século quinto surgiu a questão de Nestório, Patriarca de Constantinopla na qual a sua cristologia profundamente antioquena, era influenciado por Teodoro de Mopsuéstia. Quando ele chegou naquela cidade tinha notado que uns defendiam o Theotókos(Maria como aquela que concebeu Deus) contra aqueles que defendiam o termo: Αnthropotókos, (Maria como aquela que concebeu o homem Jesus). Ele deveria pronunciar-se a respeito dessa controvérsia. Ele preferiu o Christotókos(Maria como aquela que concebeu Cristo), pois assim ele achava que essa definição não suscitasse problemas. No entanto a sua posição feriu a religiosidade popular mariana. Nestório será acusado de dizer que Maria concebeu um homem comum e de dividir o Deus-Homem em duas pessoas distintas. É claro que Nestório recusou esta acusa. Ultimamente foi descoberto um livro dele, intitulado Heráclide, escrito 20 anos após a controvérsia, no exílio, aonde ele se declarava satisfeito pela cristologia de Leão, assumida no Concílio de Calcedônia(451), a qual distinguia as duas naturezas na única pessoa de Cristo.

Cirilo insurgiu-se contra Nestório afirmando a verdade de fé de que Maria é mãe de Deus pela encarnação do Filho de Deus. Ele considerava o encarnado o Verbo divino que vivia sobre a terra como verdadeiro homem; este dado era para ele o ponto de vista soteriológico. O Senhor da história era Deus mesmo em carne humana que vivia, morria e ressuscitava pelos homens. Por isto o título de Theotókos tinha sentido, ponto doutrinal que Nestório recusava; para ele(Cirilo) o Verbo era Filho de Deus por natureza, mas também ele era filho de Maria do momento que Maria o gerou na humanidade.

Cirilo de Alexandria chegou à conclusão que a alma racional de Jesus tinha uma parte decisiva no seu ato de obediência e de oferta de si. A alma era o principio do sofrimento do Redentor. A realidade da natureza humana após a união era vital para ele numa perspectiva soteriológica, de salvação. Ele afirmava que Jesus Cristo dignou-se nascer como nós, e veio ao mundo como o homem ao nascer de uma mulher, sem cessar de ser aquilo que era: Deus em natureza e em verdade. Porque a Santa Virgem colocou ao mundo segundo a carne Deus unido em pessoa à carne, nós a dizemos Mãe de Deus. Não que a natureza do Verbo tenha se originado da carne, uma vez que ele era em princípio e o Verbo era Deus, o Verbo era com Deus e ele é o autor do mundo, coeterno com o Pai, o Criador do universo, mas como dizemos em precedência dignou-se nascer na carne pelo seu seio(Ep. 17,11). Aos olhos dos alexandrinos, surgiu uma nova heresia a partir de Nestório e Cirilo tornou-se o seu adversário. Os dois recorreram a Roma. Um sínodo romano, realizado em 430, deu mais atenção a Cirilo de modo que ele teve autoridade para admoestar Nestório.

Em 431 houve o Concílio de Éfeso aonde se definiu que Maria é a mãe de Deus, não pelo fato de que Deus tenha uma mãe, porque é o Criador de todas as coisas e dos seres humanos, mas pelo fato de que o Verbo encarnado é Filho de Deus, Maria carrega este titulo que a Igreja o reconheceu devido a doutrina da salvação trazida por Cristo, enviado do Pai à humanidade.

Conclusão

A doutrina mariana foi se desenvolvendo nos primeiros séculos pelos padres, devido aceitação de Maria no plano de salvação à humanidade realizado por Deus Pai ao enviar o seu Filho ao mundo na qual nasceu de uma mulher. Devido as controvérsias cristológicas que surgiram era fundamental reforçar a idéia de que o Filho de Deus gerado na carne é Deus e por isso Maria carrega o titulo de mãe de Deus. Maria está presente na vida do povo de Deus, pois ela está ligada a Jesus Cristo, a primeira discípula missionária do Senhor. A homenagem que é dada a Maria não é de adoração, mas de veneração, porque sendo criatura privilegiada por Deus, sem o pecado original gera na carne o Filho de Deus sem o pecado. Maria sempre nos leva a Jesus, o seu Filho. Por isso supliquemos as graças necessárias para viver o seguimento a Jesus, a alegria de testemunhar para os outros, o Senhor. A doutrina mariana na patrística influenciou toda a mariologia posterior, de modo que Maria nos ajude a viver no momento atual o amor a Deus e o amor ao próximo, como a nós mesmos, o mandamento verdadeiro que Cristo deixou para os seus discípulos, as suas discípulas, seus missionários e suas missionárias.

Dom Vital Corbellini
Bispo de Marabá - PA