As figuras-modelo da espera do advento

Na liturgia do Advento emergem algumas figuras bíblicas que dão uma tonalidade especial para este tempo litúrgico: Isaías, João Batista, Nossa Senhora e São José.

Isaías

Uma antiquíssima e universal tradição indicou para o Advento a leitura do livro deste profeta, porque nele, mais do que nos outros, encontra-se um eco da grande esperança que confortou o povo eleito durante os séculos difíceis e decisivos da sua história, sobretudo no exílio.
A segunda parte do livro, constituída pelos capítulos 40-55, chamada de ‘Livro da consolação’, é obra do assim chamado Dêutero-Isaías. Ela contém um alegre anúncio de libertação, fala de um novo e mais glorioso êxodo e da criação de uma nova Jerusalém. As páginas mais significativas deste livro são proclamadas durante o Advento e constituem um anúncio de perene esperança para os homens de todos os tempos. O Dêutero-Isaías apresenta aos desanimados exilados o fundamento da expectativa no futuro. Não há motivo para duvidar que Deus não cumpra as suas promessas. Ele, que criou o céu e a terra, tem poder para redimir uma nova criação (45, 7-8) e o futuro terá sentido de ação criadora.

João Batista

É o último dos profetas e resume na sua pessoa e palavra toda a história precedente, no momento em que esta desemboca no seu cumprimento. Ele encarna bem o espírito do Advento. João é o sinal da intervenção de Deus em favor do seu povo; como precursor do Messias, tem a missão de preparar os caminhos do Senhor (cf. Is 40, 3), de oferecer a Israel o ‘conhecimento da salvação’, que consiste na remissão dos pecados, obra da misericórdia divina (cf. Lc 1, 77-78) e, sobretudo, de indicar Cristo já presente no meio do seu povo (cf. Jo 1, 29-34) (BERGAMINI, 1994, p. 184).

A consciência lúcida da sua missão, a sua vontade de ceder lugar para Cristo que deve crescer, enquanto ele deve diminuir (cf. Jo 1, 19-28), fazem do Batista uma figura sempre atual. Ele é o modelo daqueles que Deus consagra totalmente para preparar seus caminhos; daqueles que experimentam a alegria de ouvir a voz divina e ver acolhido o próprio testemunho; daqueles que servem o evangelho, despertando inquietações salutares nas consciências adormecidas dos homens; daqueles que são reduzidos ao silêncio nas martirizantes prisões de todos os tempos.

Não se pode falar de João sem falar de Cristo; por isso, a Igreja nunca invoca a vinda do Salvador sem lembrar-se de João, do qual o próprio Jesus fez o maior elogio: ‘Entre os nascidos de mulher, ninguém é maior do que João’, embora ‘o menor no Reino de Deus seja maior do que ele’ (Lc 7, 28).

Nossa Senhora

O Advento é tempo litúrgico no qual, diferentemente dos outros, coloca-se em destaque a relação e a cooperação de Maria no mistério da redenção. Isso acontece como que ‘por dentro’ da celebração do mistério e não como sobreposição ou acréscimo devocional. Nos textos da liturgia do Advento, podemos dizer, com as palavras da constituição Lumen Gentium do Concílio Vaticano II, que Maria ‘se sobressai entre os humildes e pobres do Senhor que dele esperam e recebem com fé a salvação. Com ela, enfim, excelsa filha de Sião, depois de uma demorada espera da promessa, completam-se os tempos e se instaura a nova economia, quando o Filho de Deus assumiu nela a natureza humana, a fim de livrar o homem do pecado pelos mistérios da sua carne’ (n. 55).

O Advento considera Maria especialmente em relação com a vinda do Senhor. Com a imagem bíblica da ‘filha de Sião’, a liturgia nos lembra que em Maria culmina a expectativa messiânica de todo o povo de Deus do Antigo Testamento; tal expectativa concentra-se nela numa aspiração, mais ardente, numa preparação espiritual mais global para a vinda do Senhor.

O Advento, na sua imediata preparação para o Natal, recorda particularmente a divina maternidade de Maria. O Filho de Deus não desce do céu em um corpo adulto, plasmado diretamente pela mão de Deus (cf. Gn 2, 7), mas entra no mundo como ‘nascido de mulher’ (Gl 4, 4), salvando o mundo por dentro. Maria é aquela que, no mistério do Advento e da encarnação, une o Salvador ao gênero humano. Os textos evangélicos das genealogias de Jesus e da anunciação, que são proclamados neste tempo, lembram-nos o mistério da ‘assunção’ do humano e da ‘imersão’ de Deus no humano. O último anel deste mistério é a divina maternidade virginal de Maria (BERGAMINI, 1994, p. 185-186).

São José

Dos textos bíblicos do Advento natalino emerge, embora com a humildade que a contradistingue, a figura de José, esposo de Maria e, justamente no momento mais significativo e delicado da missão de pai legal de Jesus. O ‘mistério’ de José é resumido em duas palavras do texto evangélico: ‘homem justo’ (cf. Mt 1, 19).

José pertence à estirpe de Davi e, como tal, permite compreender o cumprimento da promessa feita por Deus ao seu régio antepassado: ‘Eu exaltarei a sua descendência depois de você, aquele que vai sair de você, e firmarei a realeza dele (2 Sm 7, 12). Desse modo, José é o anel de conjunção que, através de Davi, de quem descende, une Cristo à grande promessa, isto é, a Abraão. Justamente porque é legalmente ‘filho de José’ (Lc 4, 22), Jesus pode reivindicar para si o título messiânico de ‘filho de Davi’ (cf. Mt 22, 41-46). Como ‘filho de Davi’ (Mt 1, 20). José tem um lugar no mistério da encarnação do Filho de Deus, porque permite que Cristo se coloque na estirpe davídica, conforme as promessas messiânicas.

Enfim, José é o ‘homem justo’, por causa da sua fé. Ele é o tipo do ‘pobre’, não só porque assegura à vida de Cristo a inserção na comunidade dos últimos tempos, mas sobretudo porque a sua fé é modelo da fé de qualquer homem que queira entrar em diálogo e em comunhão com Deus (BERGAMINI, 1994, p. 186).”

REFERÊNCIA:

BERGAMINI, A. Cristo, festa da Igreja: o Ano Litúrgico. São Paulo: Paulinas, 1994.

Vitor Nunes Rosa
Teólogo e professor de Filosofia,
Sociologia e Metodologia de Pesquisa
Científica da FAESA – Vitória-ES