Olhar a Realidade e ter ESPERANÇA...

Precisamos estar vigilantes, atentos e sóbrios, para sermos fermento de uma nova maneira de ser e de viver, mais centrada nos valores essenciais da vida neste planeta, que queremos para nós e para as gerações vindouras.

Devido a correria e aos múltiplos afazeres, nas últimas semanas não tenho tornado públicas as minhas reflexões e preocupações. Um turbilhão de pensamentos aflora ao meu espírito e sinto dificuldade em decidir quais devo comunicar neste breve comunicado mensal... Rezo, medito e o Senhor coloca no meu coração a palavra: ESPERANÇA!

O tom sugestivo de esperança em tempo de crise, se faz presente em meu coração. Depois de uma breve análise da situação que o nosso povo tem vivido, afirmo a nossa disposição de nos tornarmos mais próximos, sobretudo dos mais frágeis e que a generosidade e a coragem com que se superam as dificuldades são fermento de uma sociedade nova, justa e saudável, animada por valores que nunca deveríamos ter esquecido. Tem aparecido nos últimos dias, um sentimento que, retirado do seu contexto, pode ser uma verdadeira bomba, recordando os tempos do capitalismo e do marxismo. Diz-se que o capital provém do trabalho e este, realizando a pessoa humana, mantém prioridade absoluta. Com isto reconhece-se a primazia da pessoa humana sobre outros valores e afirma-se que o trabalho é importante para a realização da pessoa humana.

Recordando os quatro princípios basilares da doutrina social da Igreja, um forte contributo para a orientação das nossas sociedades, a saber, a dignidade da pessoa humana, o bem comum, a subsidiariedade, que suscita e apoia a contribuição específica de cada corpo social e a solidariedade, expressão da fraternidade, que nunca procura o bem particular sem ter em conta o bem de todos.

Mas, quando afirmamos a prioridade do trabalho sobre o capital, não devemos pensar apenas no trabalho remunerado, apelidando de ociosos e parasitas todos os que não produzem para o mercado. Há muitas vidas férteis e com sentido fora do circuito económico. Os pensadores, os contemplativos, a vida de convivência familiar, o cultivo da amizade, o voluntariado religioso e social e muitos outros, contribuem para a beleza e realização da humanidade. Mas não deixa de ser verdade que a pessoa humana se realiza pela ação, sendo o trabalho remunerado uma dessas expressões e muito necessário para a subsistência e projeção da pessoa em ordem à sua realização integral. Por isso uma sociedade organizada não pode pôr o dinheiro e a economia acima do direito ao trabalho em ordem à realização da dignidade das pessoas que a compõem.

Em tempo de mutação cultural e social e de racionalização das empresas e do mercado não podemos esquecer estes princípios básicos da dignidade humana e da coesão social. Um aumento explosivo do desemprego e a falta de meios para proteger os mais frágeis, não apenas atenta contra a dignidade do ser humano, mas também põem em perigo a própria sociedade.

Devemos estar “sóbrios e vigilantes. O diabo, nosso adversário, anda como leão que ruge procurando alguém para devorar; resisti-lhe firmes na fé. ” (Cf 1 Pedro 5.8-9), para sermos fermento dessa nova maneira de ser e de viver, mais centrada nos valores essenciais da vida neste planeta, que queremos para nós e para as gerações vindouras, a quem devemos transmitir também o testemunho de vidas com sentido na dimensão pessoal, familiar, social, cultural, política e económica. Vidas com esperança, amor e alegria, valores que nem sempre o dinheiro, o poder e o consumo fomentam.

Que a Virgem Maria, Senhora das Alegrias, Mãe de Deus e nossa Mãe, nos ajude nesta caminhada rumo ao céu! Deus abençoe a todos nós...

Padre Diego Carvalho
Pároco