Trabalhai, não pelo alimento que se perde, mas pelo alimento que
permanece para a vida eterna
Sexta-feira, 31/07/2009
Inicia-se o mês das vocações e a liturgia do primeiro domingo desse mês provoca-nos, sempre de novo, com um trecho do evangelho de São João (6, 24-35). A situação relatada ocorre logo após a multiplicação dos pães realizada às margens do mar da Galileia. Jesus sacia a fome corporal da multidão que o seguia, por causa dos inúmeros milagres que ele realizava nos doentes (Jo 6, 2).
Nesse trecho Jesus fará uma exortação àqueles que o seguiam somente porque foram alimentados corporalmente. Alguns, nem muito preocupados com os sinais realizados por Jesus, queriam mais comida. O Mestre então diz para eles: “Trabalhai, não pelo alimento que se perde, mas pelo alimento que permanece para a vida eterna” (Jo 6, 27). De fato, o alimento que tomamos pode nos sustentar por apenas um pouco de tempo e, logo depois, já precisaremos alimentar-nos de novo. Ou seja, nenhum alimento deste mundo pode saciar nossa fome. É fácil perceber que Jesus não estava falando de uma fome corporal. Ele mesmo, ao sentir fome após o longo jejum no deserto, deu como resposta ao tentador: “Nem só de pão vive o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus” (Lc 4,4). Essa palavra é Verbo Encarnado, o Pão Vivo descido do céu, ou seja, o próprio Jesus.
Movidos por nosso instinto de sobrevivência e progresso, trabalhamos para comer, para vestir, para construir um patrimônio, para realizar sonhos (trabalho, estudos, constituição de família, etc) e, via de regra, independentemente do alcance de nossos objetivos, encontramo-nos insatisfeitos. Investimos muito do nosso tempo e saúde nesses “alimentos” que são perecíveis, não obstante sua nobreza e necessidade. Por vezes, tornam-se o grande motivo de nossa vida: cuidar da carreira profissional, cuidar da família, cuidar para ser eternamente jovem, cuidar para curtir a vida e aproveitar cada instante dela, cuidar da saúde quando alguma doença grave nos atinge ou simplesmente, não querer cuidar de nada, nem de nós mesmos. Por mais nobres (ou frágeis) que sejam, todas essas coisas perecem e por vezes deixam-nos até um grande vazio. Por isso, “Trabalhai, não pelo alimento que se perde, mas pelo alimento que permanece para a vida eterna”.
Jesus não queria dizer que não era necessário alimentar-se, mas destacava por qual alimento devemos nos empenhar em buscar. Naquele contexto, as pessoas buscavam um alimento específico, mas que não saciaria a grande fome que ainda é desconhecida e/ou ignorada pelos homens: A FOME DE DEUS! E essa só pode ser saciada em Deus, através de Jesus. “Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim, nunca mais terá fome, e o que crê em mim nunca mais terá sede” (Jo 6, 35). Nunca mais sentir fome ou sede é estar saciado, pleno, o que passa muito além de estar bem alimentado. Se assim o fosse, qualquer pessoa bem alimentada seria uma pessoa realizada. E, ao contrário, uma pessoa mal alimentada seria uma pessoa infeliz. Ambos os casos, não são plenamente verdadeiros. Dessa forma, já que o alimento que nos sacia não é algo físico, vamos então buscá-lo no plano espiritual.
Mas como trabalhar por esse alimento que não perece? Que alimento é esse? Aquele povo queria saber essas repostas. “Que faremos para trabalhar nas obras de Deus?” (Jo 6, 28). “Senhor, dai-nos sempre desse pão!” (Jo 6, 34) E Jesus sacia também a fome de resposta ao afirmar: “A obra de Deus é que creiais naquele que ele enviou” (Jo 6, 29). O povo, porém, mesmo tendo sido alimentado por Jesus pouco antes na multiplicação dos pães, retruca pedindo sinais para que acreditem nele (Jo 6, 30-31). Crer no enviado de Deus, seu próprio Filho, é ter fé, nos dois sentidos dessa palavra, de acordo com a doutrina católica. O primeiro é acreditar nele e em todo e no seu projeto de salvação. O segundo é aderir a ele, ao seu ensinamento e ao seu projeto de salvação. Muitos sabem quem é Jesus e até acreditam nele (inclusive o inimigo de Deus...). Porém, aí vem o segundo sentido: aderir. Como acreditar se não o conhecemos? Como viver nele se com ele não temos intimidade? Como trabalhar na obra de Deus sem crer no seu enviado?
Crer e aderir a Jesus são duas coisas que só podem ser satisfatoriamente realizadas dentro da vida comunitária, porque a obra de Deus nunca é feita de maneira solitária ou sem vínculos. Não há produção e nem satisfação independente na obra de Deus, que é trino (Pai, Filho e Espírito Santo), constituiu um povo seu, deu uma terra, reis, juízes, profetas e enviou o seu Filho único para salvar a todos. Por certo que somos tratados de maneira individual, mas para fazer parte de um todo. Somos membro de um corpo e não há membro que possa viver isolado do corpo. Um projeto de fé independente de religião não condiz com o projeto de Cristo e a obra de Deus. Dessa forma, a vida comunitária é parte indispensável do trabalho na obra de Deus. Colaborações eventuais, atividades autônomas e produções independentes não fazem parte dessa obra.
Deus quer que creiamos e adiramos ao seu Filho. Somos imagem e semelhança do Eterno, nosso ser é infinito, tal como é nosso Criador. Dessa forma, jamais encontraremos saciedade nesse mundo de figuras passageiras. Nem Deus e nem Jesus querem que paremos de trabalhar, de cuidar das nossas famílias, de buscar nossos objetivos, mas que tudo isso não seja o alimento da nossa vida, para que não sejamos eternos famintos. De fato, quando trabalhamos pelo pão do céu, tudo se torna diferente e a saciedade vai tomando conta de nós.
Crer em Jesus, trabalhar por e para ele, o Alimento que dá vida e sacia toda fome e toda sede, é a vida do vocacionado. E é também nossa vocação (de todo ser humano...), nosso chamado. Vocação só nasce, cresce e gera frutos na vida comunitária. Estamos, pois num mês propício para trabalharmos com renovado ardor por esse alimento descido do céu e levá-lo a tantas pessoas que ainda sentem fome e sede. E também para revermos “nossa alimentação” a fim de que não venhamos a perecer de barriga cheia.
Fábio dos Santos Cordeiro
Membro da Comunidade São Francisco de Assis
