É preciso desacelerar
Quarta-feira, 16/09/2009
O ritmo de vida acelerado em que vivemos faz com que haja uma percepção de que o tempo está passando mais rápido. São tantas responsabilidades, afazeres e compromissos a desempenhar que conciliar tudo torna-se uma tarefa no mínimo, difícil, de forma que faz-se necessário a criação de uma espécie de “hierarquia” daquilo que é mais ou menos importante; aquilo que é urgente e o que pode esperar; o que é essencial e o que acessório.
A atual situação econômica faz aumentar ainda mais a pressão pelo conhecimento, por estudos, diplomas e qualificação. E todas essas coisas são boas pois engrandecem o ser humano, permitindo a ele novas oportunidades e ampliando seus horizontes.
No ambiente de trabalho, por sua vez, é preciso mostrar-se competente, afinal, se por uma lado há uma concorrência latente entre os profissionais pela segurança de uma vaga, por outro há o desejo de crescer, de colaborar, de contribuir e de alcançar realização, seja de auto-estima, profissional ou financeira. E essas últimas, também são coisas boas.
Em busca da qualidade de vida, o homem moderno assume cada vez mais atividades de maneira que tempo vago para dispensar para a família, para o lazer e para o descanso é um privilégio, quando não um objetivo futuro – almejado, mas sem data para ser alcançado.
O fato é que o tempo passa e, como dito, o faz de forma acelerada. Comemorou-se o ano novo com a expectativa de uma nova chance, um recomeço com novas - ou velhas - metas a cumprir e, eis que de repente passaram-se carnaval, quaresma, Páscoa, Pentecostes, Corpus Christi, férias de julho, feriado de 7 de setembro... Alguém viu o tempo passar? Mas ele passou, implacavelmente. E, antes que se possa cumprir tudo o que foi planejado, novos planos para o ano seguinte aparecerão.
Buscar em Deus o ajuste do tempo é a única maneira eficaz de se garantir que todas as coisas importantes serão realizadas – a seu tempo. O verdadeiramente importante, urgente e essencial na vida do cristão é Cristo. Tentar conciliá-Lo no cotidiano, no entanto, é perda de tempo. É preciso conciliar o cotidiano em Cristo. “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo” (Mt 6, 33).
Que tempo é o meu diante de Deus? Para ajustar os ponteiros conforme a vontade do Pai basta demonstrar a Ele este desejo e desempenhar atitudes que corroborem com com esse discurso. Não basta a boa vontade de ‘querer desacelerar’: é preciso ‘desacelerar’, gradualmente; se for o caso, em doses homeopáticas. Mas é preciso começar.
Quantos amigos perdidos antes de terem sido cativados porque não se dedicou tempo para isso: “Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante” (SAINT-EXUPÉRY, p. 74). Quanta qualidade de relacionamento desperdiçada por não se reconhecer o valor dos mesmos. Quantas experiências agradáveis desperdiçadas, simplesmente, por não se poder fazer-se presente.
“Aí é que está o drama! O planeta de ano em ano gira mais depressa, e o regulamento não muda. Agora (...) não tenho mais um segundo de repouso” (SAINT-EXUPÉRY, p. 52). E, dessa maneira, logo o presente torna-se passado e o futuro, num círculo vicioso, chega cada vez mais rápido, transformando-se, num piscar de olhos, em lembrança daquilo que poderia ter sido.
Reconhecer que a correria pode promover a perda de importantes e necessários momentos de convivência familiar, contribuir para o distanciamento entre as relações interpessoais e causar um esfriamento da relação com Deus pode ser o primeiro passo para a mudança. Para que a pressa do relógio não roube o essencial da vida é preciso então entrar no ritmo proposto por Eclesiastes: “Para tudo há um tempo debaixo do céu. Para cada coisa há um momento” (3,1). Uma vez consciente dessa realidade, a vivência da mesma é apenas uma questão de tempo.
Renata Maria Bourguignon Torres
Equipe do Site
Fonte:
Saint-Exupéry, Antoine de. O Pequeno Príncipe; tradução de Dom Marcos Barbosa. 18. Ed. Agir: Rio de Janeiro, 1975.
