Sábado, 05/12/2009
João percorria toda a região do Jordão, pregando o batismo do arrependimento para a remissão dos pecados. Como está escrito no livro das palavras do profeta Isaías (40,3ss): Uma voz clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor (Lc 3,3-4). Havia um motivo para João percorrer as regiões pregando o batismo, ele queria que os pecados de seu povo fossem remidos. Ele sabia que era preciso aplainar os caminhos e endireitar as veredas para que todo homem visse a salvação de Deus. João concretizou a profecia de Isaías preparando a chegada do Salvador.
Animai Jerusalém, dizei-lhe bem alto que suas lidas estão terminadas, que sua falta está expiada, que recebeu da mão do Senhor pena dupla por todos os seus pecados (Is 40,2). A ordem para preparar o caminho do Senhor poderia ser vista como um desejo autoritário de preparação para a chegada de um senhor exigente e caprichoso. Não são assim os senhores da História? Não é, de certa forma, direito deles serem bem servidos pelo seu povo e andar em caminhos aplainados? Mas não neste caso, não na ordem dada ao profeta, pois a necessidade de preparar o caminho do Senhor é, antes de tudo, para que todo homem veja a salvação de Deus, como desejou João; é para dizer bem alto que suas lidas terminaram e que suas faltas estão perdoadas, como gritou Isaías.
João, em suas pregações, mostrou como esperar a vinda do Salvador com ensinamentos que não
ficaram no passado, mas ainda hoje podem e devem ser aprendidos por todos nós. Quando
indagado, por aqueles que buscavam o batismo, sobre o que fazer para alcançar a salvação,
respondia-lhes com as mesmas palavras que poderíamos ouvir hoje para vivermos sem a
violência, sem a miséria da fome, da corrupção e de tantos outros males que nos rodeiam:
- Fazei, pois, uma conversão realmente frutuosa.
- Quem tem duas túnicas dê uma ao que não tem; e quem tem o que comer, faça o mesmo.
- Não exijais mais do que vos foi ordenado.
- Não pratiqueis violência nem defraudeis a ninguém, e contentai-vos com o vosso soldo.
(Lc 3,7ss).
Temos que observar os sinais dos tempos e perceber que uma sociedade onde os valores fundamentais do ser humano se perdem ao sabor das tendências e do relativismo laicista precisa ouvir novamente os profetas. Em nome de um Estado laico, não podemos abandonar nossa Fé e desconsiderarmos os valores espirituais que eles, os profetas, nos ensinaram. Arriscando-nos, como os sumos sacerdotes, que embora conhecedores da lei, optaram por César para seu rei e não Jesus (Jo 19,15).
O Cardeal D. Eugênio Sales comentando o quinzenário “Civiltà Cattolica”, de Roma, que publicou um editorial sob o título: “A Igreja é uma fortaleza sob o assédio das forças inimigas?” escreveu: “O Concílio Vaticano II é favorável à “autêntica autonomia das realidades temporais”. A “Lumen Gentium”, nº 36, reconhece “que a cidade terrena se consagre, a justo título, aos assuntos temporais e seja regida por princípios próprios”. Recorda a frase de Jesus: ”Daí a César o que é de César e a Deus o que Lhe pertence” (Mt 22,21). Ao mesmo tempo, o Concílio rejeita “a nefasta doutrina que pretende construir a sociedade sem ter em conta a religião, atacando e destruindo a liberdade religiosa dos cidadãos”. O mesmo Concílio, em “Gaudium et Spes”, nº 43: “Não se oponham, infundadamente, as atividades profissionais e sociais, por um lado, e a vida religiosa, por outro (...). O cristão que descuida de seus deveres temporais (...) põe em risco sua salvação eterna”. O leigo que é, simultaneamente, cristão e cidadão, deve sempre guiar-se, em ambas as ordens, por uma única consciência, a cristã” (“Apostolicam Actuositatem”, nº 6)”.
Ouçamos, portanto, essa voz que grita no nosso deserto interior. Preparemos o caminho do Senhor, mas sem esquecer que a lógica de Deus é diferente da nossa e, para preparar o Seu caminho, precisamos mesmo é endireitar os nossos.
Equipe do Site.
Francisco Herbet Bezerra de Menezes.
Fonte
CARDEAL SALES, Dom Eugênio. Apostolado Sociedade Católica: O Laico e o Laicismo.
