'Senhor fazei-me um instrumento de vossa paz!'
RE-DESCOBRINDO NOSSA VOCAÇÃO CRISTÃ NO EXEMPLO DE SÃO FRANCISCO E SANTA CLARA

Os “caminhos de Deus” não são roteiros claros, prontos e acabados, com itinerário, certezas e prazos definidos. São “chamados” ou vocações para um caminhar desafiador por estradas não conhecidas.

Viver a vocação é sentir-se chamado(a) por Deus à vida, numa atitude de plena doação de si mesmo(a) ao projeto divino. “Renunciar a si mesmo” para seguir os passos de Nosso Senhor Jesus Cristo não se resume numa simples aventura, mas numa atitude de fé, “um retirar-se ao deserto” onde Deus (Santíssima Trindade), deseja falar ao coração.

“Pelo sagrado Batismo a pessoa, criada à imagem e semelhança de Deus, é elevada à dignidade de Filha de Deus, participando da Família de Deus”, a Igreja “comunidade de amor”.

“A fé cristã nos mostra Jesus Cristo como a verdade última do ser humano, o modelo no qual o ser humano se realiza em todo o seu esplendor ontológico e existencial” (Documento de Aparecida, nº. 480).

Nossas comunidades eclesiais também reconhecem o testemunho cristão de tantos homens e mulheres que espalharam no mundo as sementes do Evangelho. Seu exemplo de vida e santidade constitui um presente precioso para o “caminho cristão”, um estímulo para imitar suas virtudes nas novas expressões culturais da história.

Cada época da humanidade nos apresenta um modelo típico do “modo de ser humano”, um “modo de ser santo”. No meio de tantos “modelos”, gostaríamos de ressaltar os dois mais ilustres cidadãos de Assis: São Francisco e Santa Clara, jovens “medievais” que partilharam o mesmo desejo de seguir radicalmente Jesus Cristo e viver segundo o Evangelho.

Cada pessoa deve ser sempre compreendida dentro de seu contexto histórico: “A Idade Média é um momento cultural, social, religioso, mítico, arcaico, motivo de escândalo e de interesse. Revelou possuir um centro, um cerne muito próprio, e, talvez, exatamente por causa disto nos legou uma vida cultural e espiritual de rara profundidade” (Vitório MAZZUCO. Francisco de Assis e o modelo de amor cortês-cavalheresco. 3ª edição. Petrópolis:Vozes, 1996. p.48).

A historiografia não é unânime em situar este período da história da humanidade. Aceita-se, como uma possível referência, o espaço histórico da Queda do Império Romano do Ocidente (476) até a descoberta da América (1492), isto se pensamos numa delimitação cronológica.

Porém, nós queremos entender aqui a “Idade do Meio” como uma idade nuclear, isto é, um período onde a humanidade viveu um MEIO, um Essencial, uma Raiz, uma Identidade. E foi, justamente, o homem e santo Francisco de Assis, a mulher e santa Clara de Assis quem melhor captaram este núcleo da época. Ao viverem intensamente este período medieval, Francisco (1181/1182–1226) e Clara (1194–1253) o transformaram de história em “história espiritual”.

Este “Pobre de Assis” e esta “Dama Pobre”, porque viveram bem a vocação cristã no particular de sua época tornaram-se “universais” e continuam a provocar interesse. Francisco e Clara atravessam o tempo sempre sugerindo, sempre sendo um pólo de atração.

Clara e Francisco, duas grandezas luminosas no coração da Igreja, fazem lembrar o brilho do sol e o brilho da lua. Ambos ligados por uma amizade intensa e transparente, parecem viver um sob a claridade do outro, e ambos sob a luz do Grande Sol, o Cristo pobre e crucificado.

O encontro de Francisco com os leprosos divide sua vida em um antes e um depois: é sua conversão. Passa a cuidar deles como se fossem o corpo de Cristo. Mas sua compaixão se expande. Verga-se, em sincera reverência, na direção das mais insignificantes criaturas, quer conversar com elas, falar-lhes, em cortesia, de sua gratidão por tê-las a seu lado, quer protegê-las.

Tais gestos, de amor e cuidado por toda criatura, não são legendas folclóricas, mas revelam um “modo de ser homem”, sem o qual o mundo, mais e mais, perderá o fôlego e, por fim, a esperança, não restando senão relações frias em que todos são de todos apenas usuários e, entre si, ferozes concorrentes.

Clara tinha certeza de que Deus lhe chamara para a vida de consagração total a Ele, o grande Rei, Altíssimo Pai celestial. Ela nos deixa a imagem de uma mulher integrada e integradora, plena, simples, trabalhada pela graça divina.

Ao celebrarmos, neste ano, 800 anos do “Carisma Franciscano” (o “sonho-vocação” de Francisco e Clara vivido numa numerosa família de irmãos e irmãs), desejamos que São Francisco e Santa Clara, paradigmas luminosos do peregrinar evangélico, invoquem sobre nós o Espírito que os conduziu, como Elias o invocou sobre Eliseu (2Rs 2,9-10). E que, assim, possamos, como Igreja (“Povo de Deus”, “Comunidade de discípulos e discípulas missionários de Jesus”), reviver o sonho de Francisco e Clara em “nosso chão”: sermos presenças evangelizadoras, fraternas, densamente humanas, que procuram recriar na fé e esperança uma história semelhante a que eles viveram nos distantes primórdios.

Frei Adrino Dias do Nascimento, ofm.
Convento da Penha, 30 de julho de 2009.

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