'Senhor fazei-me um instrumento de vossa paz!'
Serenidade: um caminho

É fácil sermos otimistas e mantermos nossa fé quando todas as coisas transcorrem da maneira que esperamos. Sabemos, no entanto, que o mar da nossa vida não é feito só de águas mansas e ventos favoráveis. Todos nós estamos inseridos num mundo que ora nos estimula a vê-lo com bons olhos e ora nos decepciona ou até nos faz pensar que as coisas não têm mais jeito, que o mal se alastrou e que o bem que alguns realizam em prol do outro não passa de puro interesse para a projeção pessoal. Diante de situações que nos encantam e de situações que nos frustram, temos um grande desafio: o de conquistarmos uma serenidade diante de tudo o que chega até nós, sejam elas situações de alegria ou de dor, de chegadas ou partidas, de encontros ou desencontros, de ganhar ou perder, de ter de servir ou ser servido.

Não podemos ser lançados por determinadas situações aos píncaros de uma alegria momentânea e nem para o abismo escuro de tristezas, lamúrias e pessimismos, como se o mundo se restringisse ao mal. Há pessoas que, diante dos ventos favoráveis da vida, quando tudo transcorre conforme previamente planejado, deixam-se levar por um turbilhão de otimismo e alegria. Viver na alegria é uma dádiva e uma conquista lenta e muitas vezes dolorosa... É preciso persistência para não desanimar.

Existe um desafio comum que é o de saber aceitar aquilo que na vida não pode ser mudado e de transformar, criteriosamente, aquilo que pode ser mudado. Existem situações que, tantas vezes, não podem ser mudadas pela força e conhecimento humanos: uma doença, o peso da idade, uma limitação física, uma decepção na vida afetiva, uma amizade vivida durante anos e rompida por algum motivo, a perda de alguém querido... Muitos males podem ser debelados pelos avanços da tecnologia e medicina, mas nem tudo. Sempre haverá alguma coisa com a qual deveremos lidar e que pode nos desagradar. Sempre fica algo por construir em nós mesmos.

Deus nos deu um corpo. Somos criatura, ninguém “se criou” pela sua inteligência ou vontade. Alguém nos quis. Olhar para a nossa condição de seres criados, finitos, não nos dá motivos para vivermos nos lamentando, a olhar a vida passar como quem olha as águas do rio a correr. Reconhecer-se criatura é descobrir a vocação de cada um de nós. Somos seres finitos e estamos precisando sempre re-começar, re-fazer nossos projetos, nossos sonhos, nosso itinerário. Não somos prontos. Vamos nos fazendo à medida que acreditamos na misericórdia de um Pai que não é rápido para nos punir, mas aguarda ansioso a transformação de nosso modo de acreditar e do modo como fazemos nossas opções.

É importante sabermos que somos feitos da terra, conforme a sabedoria do livro do Gênesis nos diz. Compreendermos isto nos ajuda a entender que somos suscetíveis à dor, com possibilidade de sofrermos pelos outros e de fazermos os outros sofrerem por nós. Contudo, somos dotados de grandeza por podermos aspirar a grandes coisas, aspirar a Deus, construir laços de amizade, confiança, desenvolver a sensibilidade para o mundo das artes que fala tanto do inefável.

Frei Valdecir Schwambach
Setembro de 2009

Loading

PortadeAssis.com.br © 2008-2010 Todos os direitos reservados. | Faça parte da equipe do site.