A crucifixão de Jesus constitui o desfecho de um processo instaurado contra sua pessoa e sua pregação.
A cruz era o instrumento mais cruel e o mais horrível dos suplícios. Era a pena capital reservada aos bandidos, aos escravos revoltosos, aos marginais da sociedade culpados de delitos desumanos.
Declarar-se seguidor de uma pessoa que foi crucificada não podia ser considerado senão uma loucura, uma vergonha, uma escolha contrária ao bom senso.
Escrevendo aos Coríntios, São Paulo confirma o testemunho cristão, dizendo que “os judeus pedem milagres, os gregos reclamam a sabedoria; mas nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos” (1 Cor 1,22-23).
Esta festividade da Exaltação da Santa Cruz é um convite a contemplar esse Deus Crucificado e a deixar-nos envolver em uma resposta de amor.
Em Nm 21,4-9, aparece o tema da contemplação com o episódio da serpente de bronze, levantada por Moisés no deserto, que curava aqueles que dirigiam o olhar para ela após serem picados por serpentes venenosas.
Esse símbolo é retomado em João 3,13-17, recordando que o olhar que salva é aquele que é fixado no Filho do Homem levantado na cruz. É ele que revela o verdadeiro rosto de Deus. O verdadeiro Deus é aquele que revelou seu rosto em Jesus que morre na cruz: ele é pobre, não reteve nada para si, doou tudo para a vida da humanidade.
Somente pela contemplação daquele que foi elevado no madeiro da cruz podemos vencer os males (do orgulho, da inveja, do ciúme, do ressentimento, da ira, das paixões...) que nos envenenam a alma e nos eliminam o sorriso e a vida.
Viver a cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo implica uma mística de vida. Esta mística se assenta sobre um mistério: o mistério de uma vida gerada onde aparece a morte, o mistério de um amor onde se manifesta o ódio. A cruz de Jesus resume tudo isto.
Em sua 6ª Admoestação, dizia São Francisco de Assis: “Consideremos todos, meus irmãos, o Bom Pastor que, para salvar suas ovelhas, sofreu a paixão da cruz. As ovelhas do Senhor seguiram-no na tribulação, na perseguição, no opróbrio, na fome, na sede, na enfermidade, na tentação e em tudo o mais, e receberam por isso do Senhor a vida eterna. É, pois, uma grande vergonha para nós outros, servos de Deus, terem os santos praticado tais obras e nós querermos receber honra e glória somente por contar e pregar o que eles fizeram”.
Pregar a cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, hoje, significa: pregar o seguimento de Jesus, empenhar-se para que haja um mundo mais fraterno, justo, solidário com os “crucificados” de nossa sociedade, repleto da presença de Deus nos corações.
A cruz do Senhor é o ponto de referência do olhar da pessoa que crê que vê, sintetizada na cruz, a proposta de vida e doação feita por Jesus a toda humanidade. Através deste olhar, ele nos comunica o seu convite a unir a nossa vida à sua, para que se torne um dom de amor aos irmãos e irmãs.
Frei Adriano Dias do Nascimento, ofm.
Convento da Penha – 14 de Setembro de 2009
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