'Senhor fazei-me um instrumento de vossa paz!'
"POR QUE A TI, FRANCISCO?"

Ninguém duvida da atualidade e da força de atração da mensagem evangélica encarnada por São Francisco de Assis, há oito séculos.

De fato, Francisco é reconhecido na Igreja como “homem todo católico e todo apostólico”, contudo, o testemunho do “Poverello de Assis” ultrapassa os confins da sua época, de sua cultura. É impossível confiná-lo dentro de uma confissão religiosa e, muito menos, considerá-lo como uma “propriedade privada” de seus seguidores.

Trata-se de uma experiência espiritual com uma dinâmica particular, com um fascínio, que não pode ser circunscrito a um momento histórico ou a um determinado grupo.

O aparecimento, ao longo dos séculos, de sucessivas famílias religiosas e grupos que se alimentam de seu carisma, como também as várias tentativas de “reforma” das ordens franciscanas, são um sinal evidente dessa inquieta riqueza.

Desde que, na praça de Assis, diante do Bispo e dos concidadãos estupefatos, Francisco se despojou, restituindo tudo ao pai, com as palavras: “Daqui para frente poderei dizer com liberdade: Pai nosso que estais nos céus (...) e não mais meu pai Pedro Bernardone”, ele e sua mensagem não suportam mais nenhuma escravidão. Nenhum “hábito” (= “medida”, “estrutura social”) será mais de seu tamanho, nada poderá limitar seu amor pelo Evangelho, vivido na radicalidade e criatividade.

“Francisco, por que todo mundo corre atrás de ti, e parece que todos querem ver-te, ouvir-te e obedecer-te? Francisco, por que todos correm a ti?”(Fioretti, 10)

A pergunta de Frei Masseu receberia hoje as respostas mais diversas: por causa do espírito poético, por causa de seu amor pela natureza e pelas criaturas, por causa de sua total partilha com os mais pobres, por causa de sua capacidade de reconciliar e pacificar (...). A lista poderia continuar, ou melhor, cada século tem sua lista com suas próprias respostas. Cada família, cada instituto franciscano, entre as centenas que nasceram no curso da história, pode reivindicar e definir seu símbolo, seu “hábito”, sua estrutura, seu compromisso social; mas infeliz de quem vê nessas obras, ou em outras formas externas, a realização definitiva da espiritualidade franciscana.

Francisco ainda encanta porque aponta diretamente para o Evangelho, com coragem e sem hesitações. São Francisco revela e expressa todas as possibilidades existentes em nós, mas que tantas vezes não conseguimos liberar, porque estamos muito voltados para nós mesmos e isso nos sufoca e angustia.

O abandono em Deus despertou em Francisco a confiança em si mesmo como objeto dos inexauríveis dons de Deus e das infinitas possibilidades que a pessoa tem de expressar-se. Esse abandono total, parecido ao da criança que tudo espera de seus pais, vai sendo conquistado dia a dia, na escuta da Palavra, de preferência diária.

“Francisco, diz o primeiro biógrafo (Frei Tomás de Celano) em 1228, parecia um homem do outro mundo” (1 Cel 36): de um mundo mais humano, fraterno, respeitoso, solidário, o mundo que todos desejamos e com o qual sonhamos. Poderia ser o mundo do século vinte e um, e porque não dizer do terceiro milênio se, superando as estruturas idolátricas e egocêntricas da sociedade, acolhermos, com um coração renovado, o projeto originário de Deus em nós.

A cada um de nós, homem ou mulher, é dirigido o recado que o “Poverello” deixou na hora de sua morte: “Eu fiz a minha parte, Cristo vos ensine a fazer a vossa”. (1 Cel 214)

Frei Adriano Dias do Nascimento, ofm.
Convento da Penha, 4 de outubro de 2009.

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