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12/12/2009


- Aquecimento do planeta pelas emissões de CO2, pelo homem, é um mito


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Aquecimento do planeta pelas emissões de CO2, pelo homem, é um mito



Cúpula do clima: CO2 não determina aquecimento e muitos discursos em Copenhague são demagogia, diz Prof. Molion

10/12/2009

Fonte: MNP/ Valfrido Medeiros Chaves

Entrevista

Publicação: blog - "Verde: a nova cor do comunismo"

Profº Luiz Carlos Molion, representante da América Latina na Organização Meteorológica Mundial, pós-doutor em meteorologia, membro do Instituto de Estudos Avançados de Berlim, e leciona na Universidade Federal de Alagoas.

Professor Luiz Carlos Molion declarou em entrevista para Terra Magazine que as reduções de emissões de carbono propostas pela 15ª Conferência das Partes sobre o Clima (COP-15), não influenciarão efeito no clima mundial, "o gás carbônico não controla o clima global", garante.

Molion estuda o clima desde 1970. Para mostrar a fragilidade do que se apressa em chamar “consenso científico” ele menciona que quando tirou o doutorado há 35 anos, nos EUA o “consenso” era em torno da idéia que o mundo estava numa Era Glacial.

Eis alguns excertos da entrevista:

Qual a opinião do senhor sobre as movimentações em torno da Conferência do Clima?

Essas reduções de emissões de carbono não vão produzir efeito nenhum no clima. O gás carbônico não controla o clima global. Isto já foi demonstrado com pesquisas feitas no que nós chamamos de paleoclimatologia, em que se tenta reconstruir o clima passado, com base nos cilindros de gelo da estação de Vostok, na Antártica.

Ocorreu forte aquecimento entre 1925 e 1946, e nessa época, o homem lançava na atmosfera menos de 10% do carbono do que lança hoje. Então, aquele aquecimento, que é ainda maior do que esse atual, na realidade foi explicado por fenômenos naturais.

Todos os recordes de temperatura nos Estados Unidos, que têm uma série de dados bastante longa, ainda são daquela década de 1930.

Como seria mais seguro medir as temperaturas mundiais?

Tem um sistema a bordo de satélites que leva a sigla MSU, um sensor de microondas que existe desde 1968. Ele indica que, nesses 30 anos passados, não há um aumento significativo de temperatura. Houve um aquecimento entre 77 e 99, que coincide com o aquecimento do Oceano Pacífico Tropical. Os oceanos são grandes controladores do clima, em particular o Pacífico, porque ele sozinho ocupa 35% da superfície terrestre. Então, quando ele se aquece, o clima também fica mais quente: A atmosfera, o ar, é aquecido por baixo, as temperaturas mais elevadas estão próximas da superfície.

Desde 1999, o Oceano Pacífico esfria. Hoje, não só monitoramos os oceanos, mas existem mais de 3.200 boias à deriva e mergulhadoras. Elas mergulham até 2.000 metros de profundidade, se deslocam com a corrente marinha e nove dias depois elas sobem, e passam os dados para o satélite.

Esse sistema mostra que os oceanos, de maneira geral, estão esfriando nos últimos seis, sete anos. E, nos últimos 10 anos, a concentração de CO2 continua subindo.

Mas há uma sensação de que existem muitas mudanças climáticas ocorrendo no mundo...

Não. O que acontece é que hoje, a população está mais vulnerável aos fenômenos meteorológicos. Na realidade, os fenômenos intensos sempre ocorreram no passado. Por exemplo, a maior seca do nordeste foi em 1877 até 1879. O furacão americano mais mortífero foi no Texas em 1900.

Aliás, a quantidade de carbono lançada pelo homem é ínfima, é irrisória, se comparada com os fluxos naturais dos oceanos, solo e vegetação. Para atmosfera, saem 200 bilhões de toneladas de carbono por ano. O homem só lança seis.

Qual a incerteza que nós temos nesses ciclos naturais? É de 40 bilhões de toneladas para cima e para baixo. Ou seja, existe uma incerteza de 80 bilhões que é oito vezes maior que o que o homem lança na atmosfera. Não tem como se controlar o carbono. E se controlar, se reduzir as emissões, não haverá impacto nenhum no clima.

O clima hoje deixou de ser um problema científico, ele é um problema político-econômico.

Mas a China não seria a única a reduzir, os EUA também reduziriam...

Para os países subdesenvolvidos e emergentes, excetuando-se o Brasil, reduzir significa gerar menos energia elétrica. Em muitos países só tem carvão mineral e petróleo para gerar energia. Eu não quero dizer com isso, que nós devemos sair por aí depredando o meio ambiente, tem que haver mudanças de hábito de consumos, mas as emissões de carbono não são o caminho correto.

Quem fabricou esse consenso?

Não existem consensos na ciência, ciência não é política, é experimentação.

A ciência progride pelos contras que vão surgindo. Se você tem uma teoria e mostra que ela vale, e se surge um único experimento que diz o contrário, então você tem que repensar toda a teoria.

Consensos são políticos, cientificamente eles não existem, cientificamente existem experimentações.

Então porque a impressão do consenso?

Existe uma trama por detrás disso tudo. Países como os do G7. Eles já não dispõem de recursos naturais, recursos energéticos. Por outro lado, eles não querem perder a hegemonia.

Os pesquisadores que vão de encontro a esse "consenso" sofrem algum tipo de represália?

Sim, mas isso é normal. A gente é perseguido, taxado como um indivíduo desatualizado e tem mais dificuldade de conseguir verba para pesquisa. Mas, de todas as pessoas que estão aqui no Brasil, talvez eu seja o climatologista mais sênior. Estudo clima há setenta anos e conclui meu doutorado há 35 anos, nos Estados Unidos.

No período que eu fazia meu doutorado, o clima estava tão frio que o "consenso" da época era que nós estávamos entrando numa Era Glacial. O clima é muito complexo e jamais poderia ser dominado pelo CO2. Ao contrário, o CO2 é resultante do aumento da temperatura, quando a temperatura aumenta os oceanos liberam mais CO2.

É, mas não da maneira correta. Quando você olha para os livros didáticos das crianças, diz lá que o homem está destruindo a camada de ozônio, que a Terra está se aquecendo, que o nível do mar vai subir... Isso está errado!

O que nós estamos fazendo? Educação ou lavagem cerebral? Na minha opinião, olhando todos os indicadores climáticos, nós vamos ter um resfriamento climático nos próximos vinte anos. O que vai acontecer com essa criançada quando eles perceberem que, ao invés de aquecer, está esfriando, e que esse esfriamento é muito pior para a humanidade?

NEVE E GELO NO PORTO DE MARSELHA, 2009

Os países parecem dispostos a fazer acordos de redução em Copenhague...

É um discurso que não vai adiante. À medida em que a população aumenta, há a necessidade de mais energia elétrica, se a gente quiser incluir esse pessoal em uma sociedade que viva adequadamente.

Como incluir essas pessoas sem aumentar o consumo? Não existe como. Somos ainda muito dependentes dos combustíveis fósseis. Acho que vai ter muito discurso em Copenhague, vão fazer muitas promessas, mas são só demagógicas.

Não tem como cumprir essas metas. Se você olhar o Protocolo de Kyoto, a Europa não reduziu absolutamente nada, ao contrário. Conversa é conversa, na prática, não há como fazer isso.

Data da publicação: 10/12/2009 Voltar ao sumário da página


Irã: cristãos são cidadãos de segunda classe



Especialista fala das dificuldades e riscos dos membros das minorias religiosas

Por Michaela Koller

BRUXELAS, quarta-feira, 2 de dezembro de 2009 (ZENIT.org).- Wahied Wahdat-Hagh, especialista em Irã, nesta entrevista a ZENIT, adverte do perigo que os milhares de cristãos no Irã correm por causa da legislação sobre apostasia. Ele explica que membros das minorias religiosas são cidadãos de segunda classe na teocracia do Irã.

Pesquisador político, Wahdat-Hagh trabalha para a Fundação Europeia para a Democracia em Bruxelas e investiga o islamismo no mundo desde 2005.

–Quando o embaixador do Irã no Vaticano, Akbat Naseri, apresentou suas credenciais, Bento XVI advertiu que o país deveria respeitar o direito dos cristãos à liberdade religiosa. Qual é o estatuto legal dos cristãos no Irã?

–Wahdat-Hagh: Temos de distinguir entre os cristãos étnicos tradicionais do Irã e os novos movimentos cristãos que vieram para o país. As Igrejas armênia e assíria mais ou menos se adaptaram, apesar de que seus membros não podem viver da forma que escolheram. Seus membros sofrem discriminação sistemática nas áreas da educação e trabalho. As mulheres devem por lei usar o véu. Os cristãos e membros de outras religiões reconhecidas, tais como judaísmo e zoroastrismo, são considerados "dhimmis". Os dhimmis são de fato cidadãos de segunda classe e não têm os mesmos direitos que os xiitas. Ademais, os cristãos são considerados "kafar", ou pagãos. Só os que aceitam o Alcorão como última revelação de Deus são crentes. Os pagãos são considerados “impuros”.

–Que sucede com as minorias que não têm o status de "dhimmi"?

–Wahdat-Hagh: Entre elas inclui-se os bahais, que são ilegais. A vida de um cristão segundo a lei iraniana vale menos que a de um muçulmano, como se pode observar nos pagamentos de compensação por um acidente de trânsito. A própria legislação considera a vida de um bahai como absolutamente sem valor, devido à crença bahai em uma revelação de Deus que apareceu depois da vida de Maomé. Além disso, os bahai creem na igualdade dos sexos e no mandamento de promover a paz mundial. Também rejeitam totalmente a violência política. Estes são temas tabu no Islã totalitário fundamentalista e a doutrina estatal iraniana é um reflexo disso.

–O Papa também aludiu à longa tradição do catolicismo no Irã. Há diferenças no modo em que as restrições da liberdade religiosa afetam as diferentes igrejas cristãs?

–Wahdat-Hagh: Os iranianos que vivem de verdade perigosamente são aqueles que se converteram ao cristianismo recentemente e se uniram ao sempre crescente movimento "Home Church". Algumas fontes indicam que estas igrejas domésticas se tornaram mais fortes que a Igreja Católica no Irã. Os convertidos são vistos como apóstatas e correm o risco de execução. No Islã não se permite a um muçulmano se converter a outra religião: implica a pena de morte. Uma nova lei de apostasia será aprovada antes do fim do ano. A vida de centenas de milhares de pessoas está em perigo.

–O Papa disse que a liberdade de fé, consciência e credo são a fonte de todas as demais liberdades. Que significa isso especificamente para o Irã?

–Wahdat-Hagh: O que o Papa disse é verdade e é ainda um grande problema no Islã. Os muçulmanos liberais dizem que não há compulsão no Islã, mas, segundo a lei, nenhum muçulmanos pode deixar a fé islâmica porque o Alcorão é considerado a última palavra de Deus. Para o Irã, isso significa que não há liberdade de fé ou consciência, e por consequinte todas as outras liberdades são inexistentes. Portanto, não pode haver direitos da mulher na República Islâmica, assim como não há liberdade de imprensa, e se tolhe também o direito de congregar-se e forma associações. Mas sobretudo não se concede o direito à vida aos apóstatas. A existência da liberdade de fé, consciência e credo foi proibida no Irã desde o momento em que tudo se baseia na lei islâmica.

–Muitos observadores associam as maiores violações dos direitos humanos com o regime do presidente Mahmoud Admadinejad. Como outros gerenciariam o direito à liberdade religiosa?

–Wahdat-Hagh: Quando Mousavi foi primeiro ministro, nos anos 80, toda a oposição secular foi absolutamente eliminada. Então costumava advertir contra a cooperação com os Estados Unidos e a Europa. O movimento para a reforma social e a liberdade que agora Mousavi usa como um escudo se radicalizou. Hoje Mousavi segue citando a autoridade do totalitário ideólogo e líder revolucionário aiatolá Jomeini. Alguns dizem que ele mudou. O futuro revelará se dará marcha ré à ditadura totalitária da República Islâmica.

–O Papa também fala da cooperação internacional desde uma visão para alcançar a paz global. Que teria de acontecer para que o Irã aceitasse de modo crível este convite?

–Wahdat-Hagh: A questão é o que o Irã deve fazer para tornar possível a cooperação internacional para a paz global. Não é suficiente para ideólogos como Jatami falar do diálogo de civilizações. O Irã tem de superar a ideologia totalitária do jomeinismo e conceder liberdades elementares a seus cidadãos. Um Irã democrático pode também trabalhar de modo crível pela paz global. A sociedade civil iraniana tem potencial para isso.



Data da publicação: 04/12/2009 Voltar ao sumário da página


EUA: católicos veem sua liberdade de expressão em perigo



Advogado Bill Maurer explica por que os católicos devem ficar em alerta
Por Annmarie Adkins


SEATTLE, segunda-feira, 2 de novembro de 2009 (ZENIT.org)-. Os católicos nos EUA, e inclusive as dioceses, tornaram-se vítimas da lei de financiamento de campanhas em geral (não apenas políticas), fato que viola sua liberdade de expressão.

Em resposta a esta emergência, foi criada uma coalizão de organizações que observam todo o espectro político, com o nome de Cidadãos Unidos.

Para compreender melhor o alcance das leis do financiamento de campanhas, ZENIT fez contato com o advogado Bill Maures, diretor executivo em Washington do Institute for Justice, um dos membros mais ativos de Cidadãos Unidos.

Maurer compartilhou com ZENIT os motivos pelos quais os católicos, sobretudo devido a sua história de perseguição e seu status de minoria e de estrangeiro, deveriam ser céticos em relação a essas leis, que limitam a capacidade de falar sobre assuntos políticos.

–Os católicos devem suspeitar das leis sobre o financiamento de campanhas?

–Maurer:
Todos os norte-americanos deveriam ter suspeitas sobre as tentativas do governo de regular e restringir a atividade política. Os católicos, que no passado sofreram discriminação nas mãos de uma maioria hostil, deveriam se preocupar precisamente pela falta de ferramentas de dissensão.
Se o governo é capaz de determinar quando a influência de um partido no debate político se torna “excessiva” e “indevida”, então é o governo que terá a capacidade de acabar com a voz de um interlocutor para fazer com que o debate seja justo.
Não surpreenderia se o governo concluísse que seja necessário emudecer as vozes daqueles que se opõem ao poder. A este respeito, os católicos são plenamente conscientes da longa tradição de como alguns, neste país, lamentaram a “indevida” influência da Igreja nos assuntos do governo.
Quanto ao dinheiro na política, em um país tão grande como este, é considerado um instrumento absolutamente essencial para que os oradores cheguem a público. Muito simples, tendo em vista o muito que o governo realiza no âmbito estatal e federal, surpreende que os norte-americanos não gastem mais dinheiro no discurso público.
Enquanto o governo ganha mais força e atinge áreas da vida das pessoas antes nunca alcançadas, a necessidade de um debate público sobre o que acontece no governo se torna cada vez mais necessário. A capacidade do público para escutar as ideias políticas não deve se limitar aos que tenham os recursos.

–Como a participação dos bispos e dos leigos afeta, no geral, as leis de financiamento de campanhas? Pode fornecer-me exemplos concretos?

–Maurer:
Os bispos e outros membros do clero são habitualmente discretos sobre as atividades políticas, não tanto pelas leis de financiamento de campanhas e sim devido às restrições de atividades políticas relacionadas à manutenção do status de isenção fiscal da Igreja.
No entanto, quando os bispos e o clero se envolvem em campanhas concretas, como se posicionar contra as iniciativas do Estado em temas de vida humana, possuem as mesmas restrições que os demais cidadãos.
Por exemplo, se se opõem a dirigir a verba à iniciativa “morte com dignidade”, como na do Estado de Washington, devem declarar seus nomes, endereços e as pessoas para quem trabalham, de maneira que o governo possa publicar em uma base de dados na internet.
Estas obrigações diminuem a participação das pessoas na atividade política. Por exemplo, os proprietários da iniciativa contra o matrimônio homossexual na Califórnia se converteram em objeto de ameaças, boicotes, manifestações e repressões econômicas. Depois da oposição das pessoas, os dados estavam na internet.
Quanto aos leigos, quando as pessoas se unem e dedicam seus recursos a fim de perseguir uma mudança política, descobrem que seus esforços se submetem às leis de financiamentos de campanhas.

–Recentemente a diocese Bridgeport foi investigada pelo estado de Connecticut por violar supostamente sua lei de procedência associativa quando encorajou seus católicos a se oporem a uma lei que afetaria o governo da Igreja. O que aconteceu neste caso? Acredita que veremos outras situações nas quais o governo regula a voz da Igreja na praça pública?

--Maurer:
Em março de 2009, a Assembleia Geral de Connecticut se submeteu a debater uma legislação que teria privado os sacerdotes e os bispos da capacidade de participar de organismos corporativos que controlam a propriedade paroquial em Connecticut, e que ordenava que os organismos do governo destas corporações estivessem formados apenas por membros leigos da paróquia.
Em contrapartida ao que foi considerado um desafio à autoridade da Igreja sobre o funcionamento interno de suas paróquias, a diocese de Bridgeport pôs informações sobre a lei em sua página da internet e pediu aos pastores que lessem uma declaração na missa dominical revigorando a oposição pela lei.
A Igreja também animou seus fiéis a assistir a uma reunião e a fazer contato com os legisladores.
Estes esforços conduziram à investigação da diocese pela Connectitud Office of Atate Ethics (OSE) por violar a lei de procedência associativa do Estado.
A diocese levantou uma luta diante o tribunal federal desafiando a constitucionalidade desta lei, mas, depois que o Fiscal General de Connectitud concluiu que as atividades da Igreja constituíam uma exceção ao estatuto social, encerrou-se a investigação.
A experiência da arquidiocese de Bridgeport é infelizmente muito comum. Mesmo que não tenham violado lei alguma, o preço emocional e econômico de ser investigado pelo governo pode ser algo muito complicado.
Qualquer igreja pode sofrer o mesmo destino que a arquidiocese de Bridgeport, caso apoie seus fiéis a serem atuantes em temas públicos vitais para a fé católica. Estas paróquias podem ser vistas utilizando seus recursos para se defenderem contra os inspetores do governo, ao invés de usarem este dinheiro para levar adiante seu missão apostólica.

–Quais princípios os católicos devem ter em mente quando avaliam as diversas propostas de reforma da participação no processo político?

–Maurer:
Em um momento em que muitas das esperanças e crenças da Igreja entram em conflito com muitas crenças do “establishment” político do país, os católicos deveriam lembrar que dar ao governo os meios para controlar o debate político pode resultar em silenciar os que discordam politicamente.
Nos exemplos que antes mencionei, as leis de financiamento de campanhas foram utilizadas com a finalidade de acabar com a atividade política que apoiava os pontos de vista da Igreja. A lição é que, quando o governo tem o poder de regular o discurso político, qualquer orador pode ver-se sem poder de fala.
Com cada proposta de “reformar” as lei de financiamento de campanhas, os católicos deveriam se perguntar: 1) isso animará ou desanimará o discurso e a atividade política, 2)isso irá interferir na capacidade de uma minoria de se expressar sem reservas seus pontos de vista, e 3) esta proposta dará a quem está no poder um instrumento que exclui os pontos de vista de quem não concorda com eles.
Em última instância, os católicos devem apoiar uma praça pública vibrante e não restringida, onde a verdade e a sabedoria dos temas que afetam todas as nossas vidas sejam debatidas de forma livre e apaixonada.



Data Publicação: 02/11/2009 Voltar ao sumário da página


"Uma ética baseada apenas na Ciência seria vã"



Entrevista com Prof. Francisco Borba


Francisco Borba, biólogo e professor da PUC-SP, com doutorado em Oceanografia, é Coordenador de projetos do Núcleo de Fé e Cultura da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e um dos organizadores do recém-lançado “Um diálogo latino-americano: bioética
documento de Aparecida”..


Qual é a proposta do livro, e por que usar o documento de Aparecida?

Nosso objetivo é fazer uma ponte entre ciência e religião usando a discussão sobre bioética partindo do documento de Aparecida, que é o texto mais recente da Igreja Católica na América Latina; por isso, do ponto de vista católico, é o ponto de partida mais adequado para nossa reflexão. Em relação à bioética, o documento não chega a trazer grandes novidades: ele reafirma a posição católica de defesa da vida, dizendo "não" ao aborto e à eutanásia, mas é importante mostrar que não se trata de uma posição negativa. Os "nãos" são a consequência lógica de um "sim" maior, dado à vida, à beleza e ao amor. É uma postura de acolhida em relação às pessoas que estariam tentadas a uma opção pela morte. A peculiaridade do texto aprovado pelos bispos é que o documento mantém a opção pelos pobres – não se pode falar em bioética na América Latina sem pensar na situação de desigualdade e exclusão social, unida à discussão sobre a crise de sentido trazida pela pós-modernidade.


Há diferenças sobre como a Igreja trata as questões de bioética na América Latina, na Europa ou na América do Norte?

Não há diferenças na forma de engajamento. O que existe de específico na América Latina é uma situação de pobreza extremamente desafiadora. O bispo, num contexto local, se sente muito mais chamado a dar uma resposta que não apenas defenda a vida, mas também responda às dificuldades que as pessoas enfrentam por causa de sua situação social.


Qual é sua avaliação sobre a ação da Igreja nos temas de bioética?

A Igreja no Brasil é muito ativa nos temas polêmicos, mas a mídia criou uma imagem muito reducionista da Igreja nesse aspecto. A participação da CNBB em audiências no Legislativo ou no Judiciário aparece mais que as ações concretas em prol das pessoas. Quem lê jornal fica com a impressão de que a Igreja só sabe condenar as pessoas, mas no dia a dia a grande ação da Igreja se dá, por exemplo, na experiência de acolhida a mães que consideraram o aborto por julgarem não serem capazes de criar o filho, mas com a ajuda da Igreja enfrentaram esse desafio e são felizes com a criança. Em São Paulo temos, por exemplo, o Amparo Maternal, destinado justamente para essas mães. Mais que a discussão sobre a eutanásia, a atividade da Igreja está na conscientização junto às famílias para que aceitem seus idosos, seus pacientes graves, ajudando-os a encontrar um sentido para continuarem vivos. Mas esse tipo de atuação silenciosa, que é a mais extensa, fica perdida.

Quando o Papa veio ao Brasil, fizeram a ele uma pergunta sobre o aborto no México. Bento XVI deu uma resposta muito interessante: a questão do aborto, seja por que motivo for, sempre é uma questão de perda da esperança e da capacidade de ver a beleza da vida. Então, defender a vida significa ser capaz de retomar essa beleza e dar às pessoas uma esperança, um rumo. A atuação da Igreja é muito mais centrada, na verdade, na observação de experiências positivas de recuperar essa beleza e essa esperança. Muita gente pensa que Ratzinger se move usando princípios abstratos para censurar condutas, mas na verdade o que ele faz é o contrário: ele se baseia em experiências positivas da Igreja para propor condutas. Ele é muito mais propositivo que negativo. Se a Igreja defende a vida é porque ela vê continuamente experiências em que as pessoas se realizam muito mais tendo o filho ou convivendo com o idoso do que matando o nascituro ou o doente.


Qual a legitimidade da religião – qualquer uma, não apenas a católica – para dizer o que se pode e o que não se pode fazer em termos de experimentos científicos?

"Legitimidade da religião" não é o melhor termo, pois para mim ele reflete um vício do modo de pensar atual. A questão não e a legitimidade da religião, da ciência, da filosofia ou da política. Eu prefiro falar em "legitimidade das ideias", seja quais forem. As ideias se definem pelo que têm de verdadeiro e adequado à realidade, e não por quem falou primeiro. Mas as ideias sobre bioética, de modo geral, padecem de um grande problema que chamo de "tecnicismo", a noção de que a solução técnica resolve todos os problemas e de que o fato de termos a técnica para fazer algo tornaria esse algo permitido, lícito, bom ou recomendável. Suponha que um engenheiro de Fórmula 1 fizesse o carro perfeito, o mais rápido do mundo, e concluísse que não precisaria de um bom piloto – afinal, se o carro é perfeito, o próprio engenheiro poderia dirigir e venceria qualquer corrida. Na primeira curva ele estaria no muro. A técnica em si, por mais aprimorada que seja, não resolve os problemas. Ela tem de ser utilizada com sabedoria. O problema da ciência é que ela não é um conhecimento destinado a gerar sabedoria. A ciência pergunta como as coisas funcionam ou como podem ser modificadas ou utilizadas, mas não pergunta por que ou para que as coisas existem. No entanto, quando tenho de tomar uma decisão humana, não interessa em que campo, essa decisão envolve os porquês. O que eu desejo com isso? Como isso me realiza? As informações dadas pela ciência podem ajudar a responder as perguntas, mas não são a resposta. Historicamente, quem responde melhor esse tipo de pergunta são as religiões. Elas permitem que o homem comum, o que não tem tempo ou capacidade para discutir as grandes questões metafísicas, possa tomar decisões que respondam a essas questões. É a contribuição que a religião trouxe ao mundo.

Na encíclica Caritas in Veritate, Bento XVI diz que a ciência e a técnica não têm por finalidade responder as perguntas sobre o sentido da vida. Então, uma ética que nascesse pura e simplesmente da ciência seria totalmente vã. A ciência precisa dialogar com os campos do saber que se perguntam sobre o sentido: a Filosofia e a Teologia. Dessa discussão é que nasce realmente uma ética adequada. Mas, hoje, essa ética é contrária a muitos mecanismos de dominação na sociedade, então a forma de impedir que essa ética se organize é dizer "vamos deixar tudo na mão da ciência". Não é só a religião que está em xeque: a filosofia também está. Quase todo bom cientista faz questão de dizer que ele não quer dar regras de conduta para ninguém, apenas descrever a realidade como ela é, do modo mais fiel possível. É evidente que essa explicação e descrição nos ajudam a tomar decisões éticas, mas sozinhas elas não geram ética. Porém, a técnica gera, isso sim, pessoas dóceis à dominação, porque se vende a noção de que, se usarmos a técnica, não precisamos mais nos perguntar sobre o certo e o errado.


Na bioética, quais são os perigos do uso da técnica dissociado da reflexão ética?

Eu vejo possibilidade de problemas no campo da relação do homem com sua sexualidade, porque a grande catástrofe já está dada: a mentalidade segundo a qual se eu posso tecnicamente fazer algo, eu estou automaticamente liberado para fazê-lo. Isso cria um grande problema existencial, principalmente para os jovens. Assim acontecem episódios como o daquele casal norte-americano que recebeu o embrião congelado de outra família. Há quem ache que a ciência destruiu uma certa ética religiosa, mas não seria preciso colocar nenhuma outra no lugar, o que é complicado.


Um argumento muito usado é o de que a Igreja está tentando impor suas convicções a um Estado laico...

Essa crítica só é pertinente se considerarmos que, por muitos anos, a Igreja usou sua influência política para conseguir coisas na sociedade. Mas a própria Igreja viu que isso era contraproducente e abandonou essa prática. Então a crítica atinge um tipo de comportamento que não existe mais, e que nem a própria Igreja considera adequado para ela. Mas hoje se usa esse raciocínio para neutralizar a influência da Igreja no debate. Por que fazer isso, e por que as pessoas, mesmo católicas, acreditam nesse argumento? Porque a sociedade moderna se estruturou em torno de uma crença ilusória sobre a divisão entre público e privado. A sociedade moderna diz que, desde que nos comportemos segundo certas regras na arena pública, podemos fazer o que bem entendermos na esfera privada. Isso é falso porque é impossível pensar em uma liberdade que não coexista com a liberdade do outro, e porque assim se cria um isolamento artificial entre privado e público. Mas, na verdade, dentro de casa eu não posso ignorar o que acontece fora. Só que precisamos fingir que na esfera privada fazemos o que bem entendemos, enquanto as religiões se definem justamente por também dizer a nós o que fazer na nossa vida privada, e nos dar valores para tal. Quando a Igreja faz isso, ela fere esse mecanismo da sociedade atual e se torna incômoda. Vem a necessidade de o poder laico dizer que a Igreja está se metendo onde não é chamada. A sociedade não quer uma discussão sobre o que a realiza, e sim sobre como não atrapalhar o outro. Isso é empobrecedor.

Bento XVI é muito consciente em relação ao papel da Igreja numa sociedade laica e plural – até mais consciente que muitos defensores do Estado laico. O Papa sabe muito bem que a Igreja não tem e não deve ter a autoridade política para determinar coisas na sociedade laica, mas ele também sabe que a Igreja traz a mensagem de uma tradição de 20 séculos, na qual a sociedade ocidental cresceu e se desenvolveu. A civilização ocidental é filha dessa tradição, goste-se ou não, e essa tradição tem algo a dizer. As pessoas não são obrigadas a concordar, mas não podem fazer de conta que essa herança não existe, sob pena de perder suas raízes. Nesse contexto, a Igreja tem sempre a função de propor a sua experiência, sabendo que essas proposições estão sujeitas ao debate racional no Estado democrático. O laicismo exacerbado dos nossos tempos se nega à possibilidade do diálogo racional. Se não existe essa possibilidade, caímos na censura, na postura de que a Igreja não tem o direito de se pronunciar sobre esse assunto, sem saber se o que ela tem a dizer é bom ou não.


Ano passado a encíclica Humanae Vitae, de Paulo VI, que reafirmava a proibição à contracepção artificial, fez 40 anos. Na ocasião, um médico espanhol a classificou como "profética", em vista de estudos ligando tipos de câncer em mulheres ao uso da pílula. É possível fazer esse avaliação?

Se olharmos com olhos de hoje a pertinência dos postulados da Humanae Vitae, vamos descobrir que praticamente todos esses postulados de alguma forma se confirmaram na vida social. A maioria dos métodos artificiais de contracepção mostrou efeitos colaterais muito grandes e perigosos, enquanto o método natural evoluiu e se tornou cada vez mais eficiente. A própria população mundial está mais sedenta por soluções naturais. Há uma desilusão com a solução técnica que se reflete na busca por todo tipo de terapias alternativas. E, particularmente, a epidemia de aids mostrou que o sexo casual, visto por muitos como o destino das relações afetivas, não deu certo. O problema, que não é da encíclica, foi que nessas quatro décadas a Igreja não soube falar da beleza e do amor, categorias importantes ao homem pós-moderno. Discutiu-se muito a moral e pouco o amor.


Quanto à aids, o Papa causou furor com uma declaração em sua viagem à África...

Ele disse que o uso do preservativo na África não é a solução. De fato, se existe um lugar no mundo onde a camisinha realmente não é a solução, esse lugar é a África. Em geral, trata-se de sociedades muito machistas, em que a mulher é vista como propriedade do homem – se ele tem aids, a mulher tem quase a obrigação de ter também. Além disso, o homem tem o "direito" de satisfazer sua sexualidade onde e quando quiser, com quem quiser. Ele se contamina com facilidade, e passa isso adiante para a esposa. Distribuir preservativos até protege da aids um homem não contaminado, mas é quase uma carta branca para ele continuar a ter o mesmo comportamento promíscuo. Ainda que todos usassem preservativo, o problema da aids estaria resolvido, mas não se teria avançado um milímetro na promoção da mulher. Só que nem todos usam, então a doença se espalha e a mulher continua desvalorizada. A Igreja não quer só o fim da epidemia, ela quer o respeito à mulher e à família. Em Uganda a epidemia começou a ser vencida com uma campanha que colocava a abstinência e a fidelidade em primeiro lugar. Não é à toa que o maior especialista em aids da universidade de Harvard, Edward Green, veio em defesa do Papa dizendo que ele tinha razão.



Data Publicação: 27/10/2009 Voltar ao sumário da página


80 anos do fim da “guerra cristera”



Entrevista com o sacerdote Juan González Morfín


QUERÉTARO, , 25 de outubro de 2009 (ZENIT.org).- No marco dos 80 anos do fim da "guerra cristera" no México, que atingiu o país de 1926 a 1929, o padre Juan González Morfín, graduado na Universidade da Santa Cruz, em Roma, e professor da Universidade Panamericana (México), escreveu um ensaio sobre a licitude moral do levantamento cristero.

Obra pioneira em seu gênero, La guerra cristera y su licitud moral (Porrúa, 2009), que está a caminho de se tornar referência para todos aqueles que desejam adentrar-se nesta época difícil do México, nesta guerra motivada pela intransigência do governo do general Plutarco Elías Calles (1924-1928) e seus sucessores, Emílio Portes Gil (1928-1930), a respeito da liberdade religiosa e liberdade dos fiéis.

-Que dizer do Magistério, da doutrina e da tradição do pensamento cristão sobre a ação militar como foi a guerra cristera no México?
-Pe. Juan González Morfín:
No momento em que alguns católicos mexicanos optaram pela defesa armada para recuperar direitos que lhes haviam tirado, o Magistério da Igreja foi unânime em condenar qualquer insurreição armada para ir contra o poder constituído, pelos males que isso causaria ao bem comum.

Não havia ainda o que poderíamos chamar de uma ‘doutrina católica sobre a resistência armada'. No entanto, em alguns livros que falavam sobre moral, de autores reconhecidos, começava-se a propor que se se cumprissem condições justas à defesa armada de um país contra um agressor injusto, poder-se-ia considerar justo o levantamento de um povo contra um governo que havia se convertido em agressor injusto.

-Isto era, sobretudo, uma solução teórica e todavia apresentava muitos problemas práticos: como se garantir que os meios pacíficos tinham esgotado? Que tipo de agressão ou que tipo de direitos deverão ser violados para que se considere necessária a utilização de armas? Quem ou quais pessoas estariam autorizadas a chamar à insurreição?
-Pe. Juan González Morfín:
Como se vê, a resposta não foi tão simples. No livro, apresento um amplo estudo sobre este assunto que, todavia, não é exaustivo nem pretende dar a última palavra.

-Qual foi a base social do movimento cristero?
-Pe. Juan González Morfín:
A guerra cristera foi uma revolta popular, literalmente: abrangeu todos os estratos da sociedade, o que significa que na mesma proporção, todos adentraram um terreno de batalha. As primeiras revoltas, em Zacatecas, foram de camponeses que, acostumados a defender-se das quadrilhas de bandidos, que constantemente os assolavam naquela época de grande anarquia, viram necessidade de se autodefenderem do governo, que os impedia de praticar a religião.

O que precipitou a revolta do general Pedro Quintanar foi uma agressão dos soldados contra uma multidão de católicos. Em poucos dias, estando já insurgido, o general Aurélio Acevedo se uniu com dezenas de pessoas que viram a necessidade de se levantarem o quanto antes, pois as tropas do governo estavam apreendendo as armas que as pessoas utilizavam para a autodefesa habitual de ex-revolucionários e se deram conta que, se ficassem desarmados, ficariam indefesos perante qualquer ação arbitrária do governo, que já havia fechado suas Igrejas. Assim decidiram lutar pela fé, sem qualquer perspectiva clara do que poderiam fazer com poucas pessoas.

-Qual a velocidade da propagação da ressurreição no ano 1926?
-Pe. Juan González, Morfín:
Houve insurreições semelhantes em diversos pontos geográficos naqueles meses que seguiram à suspensão do culto, ou seja, a partir de agosto de 1926. Ao mesmo tempo, iniciaram-se as ações mais repugnantes de perseguição contra o povo católico. Nestes primeiros momentos encontramos pessoas que não pertenciam aos camponeses, como os irmãos Navarro Origel, de Péjano, Guanajuato; como Carlos Díez de Sollano, também em Guanajuato; como os Guízar, na zona de Cotija, Michoacán, como cerca de trinta jovens de famílias ricas de Pedras Negras, Coahuila, poderíamos enumerar uma longa lista de pessoas de classe média alta e classe alta, como também conseguiríamos mencionar outros muitos de classe média, que estiveram presentes desde o início da guerra cristera. Por razões simplesmente matemáticas, o número de camponeses revoltosos foi a maior porcentagem.

-Qual a diferença dos cristeros em relação a outros movimentos chamados "revolucionários"?
-Pe. Juan González:
Os próprios criteros muitas vezes rejeitavam, como uma forma de ataque, ser chamados de "revolucionários". O intuito não era mudar o regime político por meio de armas, e sim que lhes devolvessem os direitos que haviam perdido; por isso, quando pensaram que poderiam voltar a praticar a fé no âmbito religioso, entregaram as armas. Nesse sentido, é interessante o testemunho do adido militar dos Estados Unidos ao término da guerra cristera: "era esperado que, com o término da guerra religiosa, um grande número de cristeros voltaria a ser bandido e isso não ocorreu".

-Que papéis tiveram os bispos e os padres na Guerra Cristera e nas mudanças de 1929?
-Pe. Juan González:
Quando haviam começado a proliferar as insurreições de católicos que tentavam defender sua fé através das armas, a Liga Nacional para a Defesa da Liberdade Religiosa, associação secular cívica que foi fundada por volta de 1925, tentou conduzir os diversos movimentos, para dar-lhes certa organização. Nesse momento, solicitaram ao episcopado seu apoio em vários sentidos. Tudo que conseguiram foi uma espécie de compromisso de não condenar o movimento armado.

Durante os quase 3 anos de luta armada, a maioria dos bispos permaneceu em exílio e, efetivamente, nunca condenaram a defesa armada. Um deles, o arcebispo de Durango, Dom José González y Valencia, viu-se na obrigação de responder à pergunta expressa sobre quem havia pego em armas. Sua resposta foi que, não tendo eles provocado a agressão, e depois de esgotados todos os meios pacíficos e defendendo direitos verdadeiramente irrenunciáveis para si e para seus filhos, como o direito de praticar sua religião, quem tinha pego em armas poderia estar com a consciência tranquila. Os padres durante essa época nem tanto de guerra, e sim de terrível perseguição, voltaram a se esconder.

-Eram tempos muito difíceis para o sacerdócio...
-Pe. Juan González Morfín:
Sob o risco de perder sua vida, como muitos, os sacerdotes atendiam clandestinamente os pedidos de seus fiéis. Alguns deles, menos de cinquenta, exerciam seu ministério entre os revoltosos na qualidade de capelães castrenses. Poucos, menos de dez, chegaram a portar armas.

-E o papel dos bispos?
-Pe. Juan González Morfin:
A explicação não é tão simples, pois muitas vezes se afirma que os bispos intervieram para negociar a paz com o governo sem levar em conta os cristeros, e na verdade a situação não foi exatamente assim. É um tema complexo e difícil de explicar, especialmente de uma forma convincente, em poucas palavras. Alguns líderes cristeros, entre eles o próprio comandante geral, Enrique Gorostieta, confessava em sua correspondência particular a necessidade de alcançar um acordo de paz.

Os bispos negociaram com o governo de Portes Gil um marco de aplicação das leis que lhes permitisse exercer seu ministério sem estarem sujeitos à autoridade civil, em questões de disciplina externa, ou seja, chegaram a um acordo que lhes permitia retomar o culto. Quem alcançou as bases do acordo foi o comandante do exército cristero, Jesus Degollado Guízar, que obteve junto ao comitê de guerra um documento que aceitava integralmente o governo de Portes Gil. Essas bases em um primeiro momento foram cumpridas, mas em pouco tempo começaria a matança seletiva de todos os que tinham ocupado algum cargo no movimento armado.

-E Roma?
-Pe. Juan González Morfín:
Os bispos pediram a autorização do Papa para suspender o culto; lógico que também pediram para retomá-lo, porém, todas as condições que os levaram a suspendê-lo não somente não melhoraram, como também se agravaram muito.

Por isso, para chegar a um acordo sobre a retomada, pediram autorização à Santa Sede, que lhes sugeriu que qualquer solução fosse tomada seguindo as seguintes condições: a) uma solução pacífica e secular; b) anistia completa para bispos, sacerdotes e fiéis; c) a devolução de propriedades, tais como: igrejas, seminários, casas de bispos e sacerdotes; d) que a Santa Sede pudesse ter relações sem restrição com a Igreja mexicana.

Pode-se dizer que os bispos, motivados pelo bem que traria a paz a seus filhos, que há quase três anos estavam sem auxílio de sacramentos, se dispuseram a aceitaram muito menos do que a Santa Sede havia indicado.

-Que ensinamento a guerra cristera deixa para a história?
-Pe. Juan González Morfín:
É conveniente continuar estudando este tema, pois há muito pouco tempo era um assunto praticamente proibido para a história - oficial e não -, talvez por causar tanta dor.

Uma consequência foi que a guerra cristera ajudou sensivelmente a fortalecer a fé dos mexicanos. Nos territórios de nosso país, a prática religiosa é mais frequente e mais sólida. O sangue de muita gente que morreu por causa da fé agora dá frutos.

-Em sua opinião, foi lícita, moralmente falando, a revolta cristera?
-Pe. Juan González Morfín:
O Papa Pio XI, em uma encíclica escrita em 1937, cerca de oito anos depois do término da guerra cristera, deu razão aos bispos, os quais não condenaram essa insurreição, e deu um a explicação dizendo que "não sabe como poderiam ser condenados os cidadãos que se unem para a defesa da Nação e autodefesa com meios lícitos e apropriados contra os que utilizam do poder público a fim arrastá-la para a ruína".

Isto, de alguma maneira, é uma confirmação a posteriori de que a defesa armada empreendida por alguns católicos mexicanos em defesa da liberdade religiosa não se pode condenar como uma ação imoral; entretanto, não significa que todas as ações realizadas pelos cristeros foram moralmente lícitas.



Data Publicação: 25/10/2009 Voltar ao sumário da página


Paternidade responsável: Especial: saiba tudo sobre o Método Billings



Entrevista com Prof. Felipe Aquino


No final deste mês, entre os dias 30 de outubro e 2 de novembro, acontece, na sede da Canção Nova, em Cachoeira Paulista (SP), um Curso sobre Método Billings. Ministrado pelas australianas Marian Corkill e Marie Marshell, diretoras da Organização Mundial do Método da Ovulação Billigns (WOOMB), o evento tem como objetivo ensinar às famílias como planejar os filhos de forma natural.

Mas, afinal, você sabe o que é paternidade responsável?
Confira neste artigo do professor Felipe Aquino o que a Igreja diz sobre este assunto:

A Igreja ensina que os filhos são a maior riqueza do casal. O mundo todo não vale tanto quanto uma vida humana, amada por Deus e criada à Sua “imagem e semelhança” (Gn 1,26). O nosso Catecismo diz que: “Os filhos são o dom mais excelente do Matrimônio e constituem um benefício máximo para os próprios pais” (§ 2378).

Uma vez que os filhos são uma bênção, o casal deve gerá-los à medida que puder também educá-los. Isso é uma missão, não é facultativo. Isto é, se um casal tem condições de educar bem um certo número de filhos, não deve ter menos. Contudo, se não tiver condições de criar bem, por exemplo, três, então que pare no segundo.

O critério de discernimento deve ser o "amor ao filho", tanto para querê-lo quanto para evitá-lo. Isto é o que a Igreja chama de Paternidade responsável: ter "todos" os filhos que o casal puder criar. O critério para se limitar a natalidade não deve ser o egoísmo, nem o comodismo, e muito menos o medo e a falta de fé, mas o amor aos filhos e a Deus.

O que se observa com facilidade é que o casal, muitas vezes, prefere adquirir um carro do ano, ou fazer uma viagem cara, a ter mais um filho. Quer dizer, o filho é colocado em segundo plano na escala de valores do casal. O valor da vida não é reconhecido. É um engano afirmar que existem fome e miséria no mundo, porque há gente demais. Os estudos mostram que a terra tem potencial para produzir alimento para muito mais gente do que existe hoje.

O que falta é o amor entre os povos e entre as pessoas para haver cooperação e promoção humana. Se os trilhões de dólares que o mundo gasta a cada ano com armas fossem gastos na promoção dos povos, não haveria miséria e fome. Já possuímos, hoje, tecnologias adequadas para abarrotar o mundo de alimento; o que falta é o amor: a fome de pão é precedida pela fome de amor.

Todos os países da Europa e também o Japão estão fazendo campanha para o aumento da natalidade, porque o mundo já corre o risco de uma implosão demográfica; a população dos países está diminuindo. É curioso observar que nos bairros ricos das cidades quase não vemos crianças, ao passo que nos bairros pobres as ruas estão repletas delas. Aquele casal rico que deveria estar educando sete, oito filhos, tem apenas um, dois, enquanto o casal pobre está criando muitos. Quer dizer, as coisas estão invertidas, de cabeça para baixo. Não é que haja muita gente, há é uma perversa distribuição demográfica.

Quando o casal conclui, livre e espontaneamente, não por egoísmo, mas por amor, que não tem condições de ter mais filhos, então ele deve buscar um método natural para a limitação dos nascimentos, não necessariamente para sempre. O Método Billings, que funciona bem quando bem empregado, é o que a Igreja aceita. Mas, não é pelo fato do método ser natural que o casal pode usá-lo indiscriminadamente para limitar a natalidade. Ele só deve ser usado quando for necessário.

O Catecismo da Igreja diz ainda que:

“A regulação da natalidade representa um dos aspectos da paternidade e da maternidade responsáveis. A legitimidade das intenções dos esposos não justifica o recurso a meios moralmente inadmissíveis (por exemplo, a esterilização direta ou a contracepção)”. (§2399)

São condenados pela Igreja os métodos artificiais, contrários à natureza, especialmente a vasectomia para os homens e a laqueadura para as mulheres, pois são graves mutilações do ser humano.

O Método Billings é um método humano, que exige o diálogo entre marido e mulher e o seu esforço conjunto. Como ele não rende dinheiro, porque não emprega remédios, é muitas vezes boicotado e acusado de ser inseguro. Na verdade, é um método seguro e recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Até nas favelas esse método tem sido ensinado com sucesso.

O que faz o ato sexual ser desvirtuado é a decisão expressa de impedir a concepção num ato que foi feito para gerar a vida. Assim, ele deixa de ser, no casamento, um sinal do amor de Deus para o qual foi feito.

O Papa João Paulo II disse certa vez:

“Tudo o que é ensinado pela Igreja sobre a contracepção não pertence à matéria livremente discutível entre teólogos... Trata-se de um ensinamento que pertence ao patrimônio permanente da doutrina moral da Igreja” (L´Osservatore Romano, 16/08/1987, p. 2).



Data Publicação: 21/10/2009 Voltar ao sumário da página


Senadora italiana adverte sobre perigos da RU486



Entrevista com Paula Binetti
Por Carmen Elena Villa


ROMA, quarta-feira, 14 de outubro de 2009 (ZENIT.org).- Querer facilitar o aborto por meio de uma pílula não reduz os traumas nem as feridas que este procedimento pode deixar em uma mulher e na sua estrutura familiar. E menos ainda diminui o atentado à vida do bebê.

Foi o que esclareceu em entrevista a ZENIT a senadora italiana Paola Binetti, diretora do Departamento de pesquisa educativa e didática na Universidade Campus Biomédica de Roma.

No dia 30 de junho, a agência italiana de fármacos, AIFA, deu carta branca para a utilização de pílula abortiva RU486. A senadora Binetti fala das contradições desta nova medida assim como de suas consequências morais e físicas de quem consome esta droga para eliminar a vida do nascituro.

–Quais consequências, morais e legais, traz o consumo desta droga?

–Paola Binetti:
O consumo da RU486 não deixa de ser um aborto, que como tal, tem sempre as seguintes características: sempre é um drama, não é nunca um direito, implica na perda de uma criatura humana.
Há sempre uma aliança muito estreita que se estabelece entre a mãe e um filho em cada gravidez. Que a mulher aborte cirurgicamente ou por drogas, desde o ponto de vista moral, não existe diferença substancial.
A diferença pode ser o fato de que está fazendo uma política de comercialização da RU486 que, como geralmente ocorre, tende a maximizar as vantagens da pílula e minimizar os aspectos mais problemáticos.
Entre as vantagens está a simplicidade do uso. Existe de alguma maneira o “progresso tecnológico”, que faz pensar que desta maneira possa ser menos doloroso, mais discreto. Mas o fato de fato é bem diferente.
A mulher que aborta ingerindo a RU486 se comporta sempre desta maneira: vai ao hospital, recebe a receita e o remédio, e o médico aceita que assume as consequências quando a mulher volta para casa.
O mecanismo do aborto proporciona a separação do feto com a parede uterina e, logo, a eliminação através de uma hemorragia. Em alguns casos, quando a fecundação supera a sétima semana, as mulheres descrevem que tanto a intensidade como a duração das dores é superior que no aborto cirúrgico, que é mais rápido e controlado.

–Que manipulações existem detrás deste lobby antivida?

–Paola Binetti:
Existe um marketing com uma série de vantagens que não são certas. O fato é que praticando de outras maneiras, pode ser mais prolongado o tempo de aborto e menos doloroso, porém, não se deve de nenhum modo pensar que quem ataca a RU486 faz porque aprova o aborto cirúrgico. O que queremos é demonstrar que uma espécie de mito, de atmosfera que se criou em todo do aborto farmacológico, que diz que “a mulher pode fazê-lo em casa”, e isso pode trazer menor consequência da gravidade do que se está fazendo.
A preocupação da Igreja não é porque o aborto seja mais grave que o outro, porque graves são todos da mesma maneira, contudo, porque este pode reduzir na mulher a consciência de que o abordo custa uma vida humana.
Há 30 anos, quando a Itália aprovou a lei 194 para a “interrupção voluntária da gravidez”, nada foi feito para tutelar a maternidade através desta responsabilidade social e, enquanto isso, tanto se fez para criar a interrupção voluntária da gravidez mais segura, rápida, etc.

–Esta lei afeta mais qual setor da população?

–Paola Binetti:
Acredito que as mulheres imigrantes, porque os italianos têm um recurso maior para a anticoncepção. Na Itália, a natalidade é baixíssima. Cada casal tem em média 1,4 filhos. Um risco que afeta mais facilmente as mulheres imigrantes, para quem a condição na qual se encontra a maternidade é muito difícil do ponto de vista econômico, do ponto de vista da segurança e, sobretudo, quando se trata de imigrantes ilegais.
Mas o que mais preocupa é a difusão da mentalidade abortiva. Por exemplo, na China, o aborto por muito tempo foi utilizado como controle de natalidade e foram abortadas principalmente mulheres. Temos agora uma geração desequilibrada.

–Em vários de seus escritos, a senhora fala da vocação de toda mulher à maternidade, seja física, seja espiritual. Como acredita que o aborto fira esta vocação?

–Paola Binetti:
É a mentalidade abortiva que fere esta vocação. Acredito, pessoalmente, que um excesso de concentração sobre si mesmo, uma mentalidade excessivamente individualista, é uma antesala direta da mentalidade abortiva. A maternidade é uma dádiva que consagra de alguma maneira o corpo da mulher em sua maior, mais extraordinária e única capacidade de transmitir a vida.
Até agora não se encontrou nenhuma outra. Inclusive quando se pensa em fecundação assistida, o corpo da mulher se converte em um habitat natural, emotivo e também físico do bebê. A mulher que perde esta sensibilidade não só perde a sensibilidade de gerar laços, de gerar relações, de criar redes e de construir um ambiente mais humano, mais rico. Este é um empobrecimento grandíssimo para toda nossa sociedade.

–Que consequências psicológicas pode gerar na mulher o uso desta pílula e a difusão em sua mentalidade antivida?

–Paola Binetti:
Todos nós conhecemos com estudos realizados por psiquiatras e psicoterapeutas o que se chama de síndrome pós-aborto, que tem várias características similares à síndrome pós-aborto por estresse. Para uma mulher consciente, a perda de um filho permanece como uma ferida para toda eternidade e este filho ausente se converte em um ato irremediável que condiciona também a relação com os outros filhos.
Sempre tem um filho que não está mais aqui. Permanece na mulher a consciência de que fez algo grave.
Certamente depois se dá a argumentação que se dá, de não podemos julgar, que as condições de vida eram muito difíceis, mas é claro que nunca haverá razões suficientes para dar fim a uma vida.
Essa mesma pessoa que conserva a ideia de que, se não tivesse abortado, quem sabe algumas coisas teriam sido diferentes. Isso altera a relação com seus companheiros, com seus filhos, com os filhos ausentes.

–Como acredita que a luta dos movimentos a favor da vida pode ser entendida não só como uma luta ideológica, como a defesa de um direito fundamental?

–Paola Binetti:
O instinto materno pertence à maturidade da mulher. De qualquer forma, define o paradigma de que sempre existiu uma predisposição à relação de cuidado.
A mulher desde muito pequena demonstra cuidados em seus gestos e uma sensibilidade particular. Desde seu nascimento, mostra uma maior atenção aos laços, ao valor da amizade, com esta maior sensibilidade e riqueza emotiva que se traduz em uma necessidade de estar com o outro.
Não se pode nem reduzir a uma ideologia. Deus confia o homem à mulher. Quando a mulher desiste dessa missão, não é apenas o homem, é toda a humanidade que perde esta dimensão de fragilidade experimentada e aceitada propriamente desde o interior da esperança de quem cuida de nós.



Data Publicação: 14/10/2009 Voltar ao sumário da página

Equipe do Site

Data Publicação: 28/08/2009

Fonte:

Editora Cleofas


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